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Guia explicativo · Blackhole BGP

O que é blackhole BGP: o descarte explicado para provedores

O que é blackhole BGP: é o uso do próprio roteamento para mandar o tráfego de um endereço para lugar nenhum. No provedor, ele aparece quase sempre como defesa contra ataque, quando a borda pede à operadora que descarte tudo o que vai para o IP atacado, e o preço dessa defesa é que esse IP fica sem internet.

Resumo

  • O blackhole descarta o tráfego pelo destino, sem olhar se o pacote é de ataque ou de uso legítimo.
  • Feito na operadora, ele protege o link de trânsito; feito só na sua borda, chega tarde, porque o link já encheu.
  • O cliente atacado fica fora do ar enquanto o pedido durar, e com CGNAT um único IP pode levar vários assinantes junto.
  • Também existe blackhole por acidente, quando a internet ainda vê a sua rota, mas o tráfego morre dentro da rede.

O que é blackhole BGP e de onde vem o nome

Blackhole BGP é uma rota que leva o tráfego até um ponto onde ele é jogado fora, como um buraco negro que engole tudo e não devolve nada. O nome vale tanto para o descarte feito de propósito quanto para o que acontece por erro.

Todo roteador tem uma saída que não vai a lugar nenhum, chamada de interface nula ou descarte. Uma rota que aponta para ela faz o roteador apagar os pacotes daquele destino sem avisar ninguém. Quando essa rota é espalhada pelo BGP, o descarte deixa de ser local e passa a acontecer em outros roteadores, inclusive fora da sua rede.

É esse alcance que torna o blackhole útil contra ataque. A configuração de blackhole BGP prepara a borda para pedir o descarte à operadora com uma marca no anúncio, e o tráfego de ataque morre na rede dela, antes de chegar ao seu link.

O blackhole BGP é uma ferramenta de contenção, não de limpeza. Ele não separa o pacote ruim do bom: tudo o que tem aquele destino some, e isso explica tanto a sua força quanto o seu custo.

Blackhole de propósito e blackhole por acidente

Na conversa de provedor, blackhole quase sempre quer dizer o descarte pedido durante um ataque. Mas o termo também descreve uma falha comum: a rota existe e é anunciada, só que o tráfego não chega a lugar nenhum.

  • De propósito: a borda anuncia o IP atacado com uma community de descarte, e a operadora apaga o tráfego para ele.
  • Âncora do bloco: a rota nula que segura o anúncio do seu bloco descarta o que vai para endereços sem uso, o que é normal.
  • Por acidente: a rota interna de um trecho da rede some, mas o bloco segue anunciado, e o tráfego que entra morre na borda.

Blackhole e RTBH são a mesma coisa?

Quase. RTBH quer dizer descarte disparado remotamente, ou seja, o blackhole acionado por um anúncio em vez de uma configuração feita roteador por roteador.

Todo RTBH é um blackhole, mas nem todo blackhole é RTBH. A rota nula que você cria só no seu roteador também descarta, porém não alivia nada antes do gargalo. O passo a passo da montagem está no guia de configuração de RTBH, e aqui o foco é entender o mecanismo e as consequências.

Como o descarte acontece no caminho do ataque?

O descarte acontece em cinco momentos, do anúncio marcado até o tráfego sumir na rede da operadora. A diferença para um filtro comum é o lugar onde os pacotes morrem.

Caminho do tráfego de ataque antes e depois do blackhole BGP
  1. 1 · Ataque

    O tráfego converge para um IP

    Milhares de origens mandam pacotes ao mesmo endereço, e o link de trânsito bate no limite.

  2. 2 · Anúncio

    A borda marca o IP atacado

    O roteador anuncia o /32 do alvo com a community de descarte que a operadora reconhece.

  3. 3 · Operadora

    A rota marcada aponta para o descarte

    Os roteadores da operadora passam a mandar o tráfego desse IP para a interface nula.

  4. 4 · Link

    O trânsito esvazia

    O que sobra no seu link é o tráfego dos outros assinantes, que voltam a navegar.

  5. 5 · Alvo

    O IP atacado fica isolado

    Nada chega ao endereço marcado, nem o ataque, nem o tráfego legítimo do cliente.

Quando o pedido é retirado, a operadora volta a entregar o tráfego daquele IP. Se o ataque ainda estiver ativo, o link enche de novo.

O anúncio leva junto uma marca que impede a rota de se espalhar além da operadora vizinha. A RFC 7999 define uma community padrão de descarte, a 65535:666, e recomenda esse limite de propagação, mas cada operadora decide se aceita a marca padrão ou usa uma própria. [CONFIRMAR na norma]

Um ataque volumétrico é um problema de cano, não de roteador. Se chegam ao seu link mais megabits do que ele comporta, o excesso é perdido na entrada, e o tráfego bom dos assinantes é perdido junto.

Por isso um bloqueio na sua borda, por mais preciso que seja, não resolve esse tipo de ataque: quando o pacote chega ao roteador, o estrago no link já aconteceu. O blackhole na operadora move o descarte para o lado de lá do gargalo, onde ainda há capacidade sobrando.

O mesmo vale para o ponto de troca. O descarte pedido ao route server do IX alivia só a porta do IX, e o que entra pelo trânsito continua chegando até que a operadora também descarte.

Por que o blackhole derruba o cliente atacado?

Porque o descarte é feito pelo destino, e o destino é o próprio cliente. Ele perde todo o tráfego, inclusive o que pediu, para que o restante da base continue no ar.

Do ponto de vista do atacante, o blackhole entrega o resultado que ele queria contra aquele alvo: o IP para de responder. Do ponto de vista do provedor, troca-se uma conexão parada por centenas ou milhares de conexões funcionando. É uma decisão de dano menor, não uma vitória sobre o ataque.

O que cada parte vê enquanto o blackhole BGP está ativo
QuemO que aconteceO que percebe
Cliente atacadoNenhum pacote chega ao IP deleInternet totalmente fora, sem lentidão gradual
Outros assinantesO link de trânsito volta a ter folgaA rede volta ao normal em pouco tempo
OperadoraDescarta o tráfego do IP marcado na rede delaMenos carga nos enlaces que levam ao provedor
AtacanteO alvo deixa de responderConsidera o ataque bem-sucedido e pode mudar de alvo

A última linha da tabela tem uma consequência prática. Se o ataque mira uma pessoa, e não um endereço, ele tende a seguir o alvo quando o IP muda, e o blackhole precisa ser repetido no endereço novo. Ataques a jogadores costumam ter esse padrão, como mostra o guia de ataque DDoS no provedor.

Quer o descarte pronto antes do próximo ataque?

A Táquion Tech configura o blackhole BGP com cada operadora, coloca travas contra pedido errado e testa o disparo e a retirada com um IP de laboratório.

Pedir proposta de configuração de blackhole BGP

Com CGNAT, um IP pode ser vários clientes

No provedor que usa CGNAT, um endereço público é dividido entre vários assinantes por faixas de portas. Se o ataque mira um IP do pool, o blackhole desse IP tira do ar todos os assinantes que saem por ele.

Nesses casos, o dano do descarte cresce na mesma proporção do compartilhamento. Vale saber de antemão quantos assinantes cada IP do pool atende e se dá para mover os afetados para outro endereço, como explica o guia de como funciona o CGNAT.

Quanto tempo o cliente fica fora do ar

O cliente fica fora enquanto o anúncio marcado existir, e quem decide isso é o provedor. Não há prazo automático: o blackhole esquecido ligado deixa o assinante sem internet por dias, sem que ninguém perceba.

Uma regra prática é combinar um tempo de revisão a cada disparo. Passado esse tempo, alguém retira o pedido, olha o gráfico e decide se o ataque acabou ou se o descarte volta. [CONFIRMAR tempo de revisão com a equipe]

Quando o blackhole vira problema na rede

O blackhole vira problema quando descarta o que não devia, por mais tempo do que devia ou em um ponto que não alivia nada. Os três casos aparecem em provedores que nunca testaram o processo.

Marque o que já aconteceu na sua borda

  • Um assinante ficou dias sem internet porque o descarte não foi retirado.
  • O pedido saiu, mas o link continuou cheio, porque a operadora não reconheceu a marca.
  • Um bloco maior que um /32 foi parar no descarte por erro de digitação.
  • O IP descartado era de infraestrutura, como DNS ou concentrador, e a base inteira caiu.
  • Um trecho da rede ficou inalcançável, mas o bloco dele continuou anunciado para a internet.
  • Ninguém sabe dizer quais IPs estão no descarte agora.

Uma marca já indica que o blackhole funciona por sorte. Duas ou mais mostram que falta trava, procedimento ou teste, e o próximo ataque vai cobrar isso.

Erros comuns que transformam a defesa em queda

Os erros abaixo têm uma origem em comum: o descarte foi usado sem regra escrita sobre o que pode entrar nele. Cada um tem uma trava simples que evita a repetição.

Evite

  • Descartar o IP do concentrador, do DNS ou do pool inteiro do CGNAT.
  • Disparar sem confirmar antes que a operadora ainda aceita a community.
  • Deixar o filtro de saída aceitar prefixos maiores que /32 com a marca.
  • Retirar o pedido em um roteador e esquecer o outro que também anuncia.
  • Usar o blackhole como resposta padrão para qualquer pico de tráfego.

Exemplo: o bloco anunciado que ninguém alcança

O blackhole acidental não tem ataque nenhum por trás. Um provedor anuncia um /22 e segura esse anúncio com uma rota nula na borda, prática comum para o bloco não sumir da internet quando um enlace interno oscila.

  1. Falha: o enlace até um POP cai, e a rota interna do /24 daquele POP some da tabela da borda.
  2. Anúncio: o /22 continua anunciado para as operadoras, então a internet segue mandando tráfego para o POP.
  3. Descarte: sem a rota específica, a borda usa a rota nula do bloco e apaga o tráfego em silêncio.
  4. Sintoma: os assinantes do POP ficam sem nada, enquanto o monitoramento externo do bloco mostra tudo verde.

A correção passa por monitorar as rotas internas de cada POP, e não só o anúncio externo. Saber ler a tabela de rotas, como explica o guia de como funciona o BGP, ajuda a achar esse descarte silencioso mais rápido.

Quando vale usar o blackhole e quando procurar outra saída?

Vale usar o blackhole quando o ataque passa da capacidade do link e o alvo pode ficar parado por um tempo. Para endereços que não podem cair, a saída é filtrar por assinatura ou mandar o tráfego para limpeza.

Uso do blackhole BGP conforme o tipo de endereço atacado
Endereço atacadoBlackhole serve?Por quê
IP de assinante residencialSim, com tempo de revisãoUm cliente parado é o dano menor diante da base inteira
IP do pool de CGNATCom cuidadoDerruba todos os assinantes que compartilham o endereço
IP fixo de cliente empresarialSó se o contrato preverO cliente pode ter acordo de disponibilidade
DNS, concentrador ou gerênciaNãoO descarte faria a queda total que o ataque buscava
IP sem uso dentro do blocoSimNão há ninguém para derrubar e o link fica livre

Quando o ataque tem padrão claro, como uma porta ou um protocolo de reflexão, o Flowspec filtra só aquele tráfego e mantém o cliente no ar. O guia de configuração de Flowspec mostra essa alternativa, que depende de operadora que aceite regras do cliente.

Para quem não pode ficar fora em hipótese nenhuma, a resposta é a limpeza de tráfego contratada com antecedência. O guia sobre como mitigar DDoS organiza essas ferramentas em ordem de uso, do filtro na borda ao desvio para limpeza.

Perguntas frequentes

O blackhole derruba o cliente atacado por quanto tempo?

Pelo tempo que o anúncio marcado ficar ativo, sem prazo automático. Por isso cada disparo precisa de um horário de revisão e de alguém responsável por retirar o pedido quando o ataque passar.

Dá para fazer blackhole sem ter ASN próprio?

O blackhole por community exige sessão BGP com a operadora e anúncio dos seus blocos, o que pressupõe ASN. Sem isso, o caminho é pedir o descarte por telefone ou e-mail à operadora, o que costuma demorar mais no meio do ataque.

O assinante percebe que está no blackhole?

Percebe como internet totalmente fora, e não como lentidão. Vale o atendimento saber que aquele IP está no descarte para explicar a situação e evitar visita técnica sem necessidade.

A community 65535:666 funciona em qualquer operadora?

Não. Ela é a marca padrão da RFC 7999, mas várias operadoras usam uma community própria e limitam o tamanho do prefixo aceito. A única forma de saber é perguntar a cada uma e testar com um IP sem uso.

Blackhole serve contra ataque pequeno?

Normalmente não compensa. Se o link aguenta o volume, um filtro na borda ou uma regra de Flowspec resolve sem tirar o cliente do ar, e o blackhole fica reservado para o ataque que enche o trânsito.

Thiago Manoel

Responsável técnico da Táquion Tech · Registro profissional [PREENCHER]

Mais de 15 anos em operações de rede, com gestão de infraestruturas de TI, administração de data centers e condução de equipes em migrações de TI e telecomunicações, com foco em alta disponibilidade e segurança.

A Táquion Tech é uma empresa de engenharia de redes de Balneário Camboriú (SC) que projeta, opera e dá suporte a redes de provedores de internet e de empresas.

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Fontes

  1. RFC 7999, BLACKHOLE Community: community padrão 65535:666 e recomendação de limitar a propagação do anúncio.
  2. RFC 5635, Remote Triggered Black Hole Filtering with uRPF: descarte disparado remotamente, pelo destino e pela origem.

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Thiago ManoelResponsável técnico