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Guia técnico · DDoS

Configuração de FlowSpec: guia prático para provedores

Configuração de FlowSpec: é preparar a rede para distribuir por BGP regras de filtro que descartam ou limitam só o tráfego de ataque, sem derrubar todo o tráfego do IP atacado. O provedor gera a regra num detector ou num servidor, e os roteadores de borda aplicam o filtro assim que recebem o anúncio.

Resumo

  • O FlowSpec descreve o ataque, como UDP vindo da porta 123, e descarta só o que bate com essa descrição.
  • O cliente atacado continua no ar, ao contrário do blackhole, que joga fora todo o tráfego do endereço.
  • Cada regra ocupa a memória de filtros do roteador, que é limitada e muda de um modelo para outro.
  • Teste com um IP de laboratório antes do primeiro ataque, nunca durante a emergência.

O que o FlowSpec resolve num ataque DDoS

O FlowSpec troca o descarte de tudo pelo descarte do que é ataque. A regra descreve o tráfego ruim por protocolo, porta, tamanho e destino, e só esse tráfego é jogado fora ou limitado.

No descarte por blackhole, todo o tráfego para o IP atacado vai para o lixo, e o cliente fica fora do ar mesmo assim. O ataque para de encher o link, mas cumpre o objetivo de tirar o alvo da internet.

Com o FlowSpec, a regra fala a língua do BGP: ela é anunciada como uma rota de uma família própria, e cada roteador que recebe transforma o anúncio num filtro. A peça faz parte da implantação de mitigação de DDoS, junto com a detecção e a capacidade de link.

Comparação entre blackhole e FlowSpec na reação a ataques DDoS
ItemBlackholeFlowSpec
O que descartaTodo o tráfego para o IPSó o tráfego que bate com a regra
Cliente atacadoFica fora do arContinua funcionando
Suporte no equipamentoAmploDepende do modelo e da versão
Risco de erroBaixoRegra larga demais bloqueia tráfego legítimo

As duas técnicas convivem bem. O guia de configuração de RTBH mostra o descarte total, que continua sendo a saída quando o ataque é maior do que o seu link.

Como funciona a configuração de FlowSpec?

A configuração de FlowSpec exige duas pontas falando a mesma família BGP: quem anuncia a regra e quem a instala como filtro. Entre elas viaja um anúncio com os campos do ataque e a ação desejada.

  • Origem da regra: um detector de ataques ou um servidor BGP, como o ExaBGP, monta e anuncia o filtro.
  • Transporte: a sessão BGP com a família flowspec ativa leva a regra até cada borda.
  • Instalação: o roteador valida o anúncio e grava o filtro nas interfaces de entrada.

A regra viaja com o mesmo cuidado de qualquer rota: ela pode ser retirada, substituída ou expirar. Isso permite desfazer a contenção sem entrar em cada roteador.

O que uma regra FlowSpec pode conter

A regra combina campos de identificação com uma ação a executar. Quanto mais campos, mais precisa ela fica e menor o risco de bloquear tráfego legítimo.

  • Destino e origem: prefixo de destino, normalmente o /32 atacado, e origem quando conhecida.
  • Protocolo e portas: UDP, TCP, porta de origem e de destino.
  • Tamanho do pacote: útil em ataques de amplificação com pacotes grandes.
  • Ação: descartar, limitar a uma taxa ou desviar para um equipamento de limpeza.

A RFC 8955 define esses campos para IPv4 e a RFC 8956 traz a versão para IPv6 [CONFIRMAR]. O suporte a cada campo varia de fabricante para fabricante, então confira o que o seu equipamento aceita antes de planejar.

Assinaturas que aparecem no provedor

Boa parte dos ataques volumétricos contra provedores regionais usa amplificação, em que servidores mal configurados respondem para o seu cliente. A porta de origem entrega a assinatura.

Exemplos de assinatura de amplificação e o campo que a identifica
AtaqueProtocoloPorta de origem
Amplificação por NTPUDP123
Amplificação por DNSUDP53
Amplificação por SSDPUDP1900
Amplificação por memcachedUDP11211

A detecção dessas assinaturas vem da leitura de fluxos na borda. O guia de implantação de IPFIX mostra como coletar esses dados para alimentar o detector.

Qual ação escolher para cada ataque

A ação certa depende de quanto o tráfego marcado pode ter de legítimo misturado. Quando a assinatura é limpa, o descarte resolve; quando há dúvida, limitar a taxa é mais seguro.

  • Descartar: para assinaturas que nenhum cliente usa de verdade, como respostas de NTP em volume para um assinante residencial.
  • Limitar a taxa: quando o protocolo também carrega uso legítimo, como DNS, e cortar tudo prejudicaria o cliente.
  • Desviar: quando existe um equipamento de limpeza na rede e o tráfego precisa ser analisado antes de seguir.

Comece sempre pela ação menos agressiva que segura o ataque. Uma taxa limite bem escolhida mantém o serviço do cliente e ainda tira o peso do link no horário do ataque.

Configuração de FlowSpec passo a passo

O exemplo usa um servidor com ExaBGP, que fala BGP com a borda e anuncia a regra. A regra descarta UDP vindo da porta 123, assinatura comum de amplificação por NTP.

  1. Servidor de regras: suba o ExaBGP numa máquina da rede de gerência, com endereço fixo.
  2. Sessão com a borda: configure a sessão iBGP entre o servidor e cada roteador, com a família flowspec ativa.
  3. Regra de teste: anuncie uma regra contra um IP de laboratório, nunca contra um cliente.
  4. Instalação: confira no roteador se a regra foi aceita e em quais interfaces ela está aplicada.
  5. Retirada: remova a regra no servidor e veja o filtro sumir das bordas.
Regra FlowSpec em formato ExaBGP
neighbor 10.0.0.1 {
    router-id 10.0.0.250;
    local-address 10.0.0.250;
    local-as 64500;
    peer-as 64500;
    family { ipv4 flow; }
    flow {
        route descarte-ntp-cliente {
            match {
                destination 203.0.113.10/32;
                protocol udp;
                source-port =123;
            }
            then { discard; }
        }
    }
}

No roteador, a família flowspec precisa estar ativa na sessão com o servidor, e a aplicação dos filtros nas interfaces de entrada precisa ser habilitada. A sintaxe muda bastante entre fabricantes.

Quer a contenção pronta antes do próximo ataque?

Na implantação de mitigação de DDoS, um Especialista liga a detecção ao FlowSpec e ao blackhole e testa tudo com IP de laboratório.

Pedir proposta de implantação de mitigação de DDoS

O que cada trecho da regra faz

O bloco neighbor define a sessão com a borda no mesmo ASN 64500, por isso local-as e peer-as são iguais. O bloco flow guarda a regra com nome, campos e ação.

  • Family ipv4 flow: liga a família FlowSpec na sessão; sem ela a regra não é enviada.
  • Match: destino /32 atacado, protocolo UDP e porta de origem 123.
  • Then discard: descarta o que bate com os campos; uma alternativa é limitar a taxa.

Em sessões internas, alguns fabricantes exigem desligar a validação da regra contra a rota unicast, porque o servidor não é quem origina o prefixo [CONFIRMAR na documentação do fabricante].

Quando vale usar FlowSpec e quando não basta?

O FlowSpec vale quando o ataque cabe no seu link e tem assinatura clara. Ele não basta quando o tráfego já enche o link de entrada, porque filtrar no seu roteador não libera a banda.

O FlowSpec usa a memória de filtros do roteador de borda, que é limitada. Ataques com muitas assinaturas ao mesmo tempo podem esgotar essa memória e deixar regras sem instalar.

  • Confira quantas regras o seu modelo aguenta e em quais interfaces.
  • Limite o número de regras aceitas por sessão.
  • Dê prazo de validade às regras automáticas.
  • Filtrar no seu roteador não libera o link; ataques maiores que o link pedem filtro no trânsito.

Para ataques maiores que o link, o caminho é o desvio para limpeza fora da sua rede. A integração com serviços de scrubbing cobre esse cenário.

FlowSpec no trânsito ou só dentro de casa

Poucas operadoras aceitam regras FlowSpec de clientes, e quem aceita costuma limitar campos e quantidade [CONFIRMAR com as operadoras]. O uso mais comum é dentro da própria rede, entre o servidor e as bordas.

Para a parte de anúncio e controle das sessões, veja a configuração de sessões com route servers. Para a origem dos prefixos, veja a validação de origem de rotas, base do RPKI.

Erros comuns na configuração de FlowSpec

Uma regra errada pode causar mais estrago que o próprio ataque. Os erros abaixo derrubam tráfego legítimo ou deixam a rede sem defesa no momento em que ela é necessária.

Evite

  • Regra sem destino, que descarta o protocolo para a rede inteira.
  • Regras automáticas sem validade, acumulando por meses.
  • Aceitar FlowSpec de clientes sem limitar aos blocos deles.
  • Testar pela primeira vez durante um ataque real.

O primeiro erro é o mais grave: uma regra que bloqueia UDP da porta 53 sem destino corta a resolução de nomes de toda a base. Por isso o destino deve ser obrigatório em toda regra automática.

Exemplo: ataque de NTP numa madrugada

O detector vê um IP de cliente recebendo muito UDP da porta 123 e anuncia a regra de descarte com validade curta. O cliente continua navegando, e o gráfico do link volta ao normal.

Se o mesmo ataque viesse com volume maior que o link, a regra não ajudaria. O guia de ataque DDoS no provedor mostra como reconhecer esse caso e o que fazer primeiro.

Checklist de validação do FlowSpec

Teste com um IP de laboratório antes de depender do FlowSpec num ataque. A validação confirma a sessão, a instalação, o descarte e a passagem do tráfego legítimo.

Confira antes de colocar o FlowSpec em produção

  • A sessão flowspec está ativa com todas as bordas.
  • A regra aparece instalada no roteador e nas interfaces certas.
  • Os contadores mostram pacotes descartados durante o teste.
  • O tráfego legítimo para o mesmo IP continua passando.
  • A regra some das bordas quando é retirada no servidor.
  • Há um limite de regras por sessão e uma validade para as automáticas.

Com todos os itens marcados, o FlowSpec pode responder a um ataque real. Repita o teste depois de cada atualização de sistema no roteador.

A Táquion Tech implanta a contenção em modo só alerta primeiro e liga o descarte automático depois que a detecção mostra que não confunde pico de uso com ataque.

Perguntas frequentes sobre FlowSpec

Qual a diferença entre FlowSpec e RTBH?

O RTBH descarta todo o tráfego para o IP atacado, e o cliente fica fora do ar. O FlowSpec descarta só o tráfego que bate com a regra, e o restante continua chegando.

A operadora de trânsito aceita FlowSpec?

Poucas aceitam de clientes, e as condições ficam no contrato [CONFIRMAR com as operadoras]. O uso mais comum é dentro da própria rede, entre o servidor de regras e as bordas.

Preciso de um detector para usar FlowSpec?

Não é obrigatório, porque a regra pode ser escrita à mão no servidor. Detectores como o FastNetMon geram a regra automaticamente ao ver o ataque, o que encurta a reação.

FlowSpec resolve ataque maior que o meu link?

Não. Se o link encheu, o filtro precisa ser feito antes, no trânsito ou num serviço de limpeza.

Todo roteador de borda suporta regras FlowSpec?

Não. O suporte depende do modelo, da versão do sistema e às vezes de licença, e a quantidade de regras também varia. Confira na documentação do fabricante antes de planejar a contenção.

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Thiago Manoel

Responsável técnico da Táquion Tech · Registro profissional [PREENCHER]

Mais de 15 anos em operações de rede, com gestão de infraestruturas de TI, administração de data centers e condução de equipes em migrações de TI e telecomunicações, com foco em alta disponibilidade e segurança.

A Táquion Tech é uma empresa de engenharia de redes de Balneário Camboriú (SC) que projeta, opera e dá suporte a redes de provedores de internet e de empresas.

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Fontes

  1. RFC 8955, Dissemination of Flow Specification Rules: definição atual do FlowSpec para IPv4.
  2. RFC 7999, BLACKHOLE Community: alternativa de descarte total por community.
  3. ExaBGP: servidor BGP usado no exemplo para anunciar regras.

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