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Guia explicativo · BGP

Como funciona BGP: o protocolo da internet explicado para provedores

Como funciona BGP: cada rede da internet, identificada por um número de AS, abre sessões com as redes vizinhas e anuncia a elas os blocos de IP que alcança. Cada vizinho guarda esses anúncios, aplica as próprias regras, escolhe um caminho por destino e repassa adiante, e é assim que um bloco anunciado no interior chega ao mundo inteiro.

Resumo

  • [object Object]
  • Cada rede é um sistema autônomo, com um ASN, e anuncia os prefixos que estão sob o seu controle.
  • O AS_PATH registra por quais redes o anúncio passou e impede que ele volte para onde já esteve.
  • Um provedor precisa de BGP quando tem bloco próprio e mais de uma saída, como dois trânsitos ou o IX.br.

O que é BGP em redes e por que a internet depende dele

O BGP, sigla de Border Gateway Protocol, é o protocolo que as redes independentes usam para dizer umas às outras quais endereços alcançam. A internet não tem um mapa central; ela é a soma desses anúncios trocados entre milhares de redes.

Dentro de uma rede, os roteadores usam protocolos como OSPF ou IS-IS, que conhecem cada enlace e calculam o caminho de menor custo. Entre redes de donos diferentes isso não funciona, porque ninguém mostra a topologia interna ao concorrente nem aceita que ele decida por onde o tráfego passa.

O BGP resolve esse problema trocando só o essencial: quais prefixos cada rede alcança e por quais redes o anúncio passou. Cada uma decide sozinha o que aceitar e o que repassar, e os serviços de BGP para provedores existem justamente para escrever essas decisões na borda.

A versão em uso é a 4, descrita na RFC 4271. Ela é antiga, mas recebeu extensões ao longo dos anos para carregar IPv6, communities, validação de origem e outros recursos sem mudar o funcionamento básico.

AS, ASN e prefixo: as três peças do BGP

Antes do mecanismo, vale fixar os nomes. Quase toda conversa sobre BGP usa estas três palavras.

  • Sistema autônomo (AS): um conjunto de redes com uma única política de roteamento, como um provedor, uma operadora ou um grande site.
  • ASN: o número que identifica o AS, distribuído no Brasil pelo Registro.br e usado em cada anúncio.
  • Prefixo: um bloco de endereços, como 203.0.113.0/24, que o AS anuncia como alcançável por ele.

Um provedor com ASN e bloco próprios é um AS como qualquer operadora grande. A diferença está no número de vizinhos e no tamanho da tabela, não nas regras do protocolo.

Como funciona BGP, passo a passo

O funcionamento se resume a seis etapas que se repetem em cada sessão: abrir, anunciar, filtrar, escolher, repassar e manter. Uma mudança em qualquer ponto da internet percorre essas etapas de rede em rede.

O ciclo de um anúncio BGP entre duas redes vizinhas
  1. Etapa 1

    Abrir a sessão

    Os dois roteadores fecham uma conexão TCP na porta 179 e combinam ASN, tempo de espera e recursos.

  2. Etapa 2

    Anunciar os prefixos

    Cada lado envia mensagens UPDATE com os prefixos que alcança e os atributos de cada um.

  3. Etapa 3

    Filtrar o que chegou

    O receptor descarta o que a política não aceita, como blocos que não pertencem ao vizinho.

  4. Etapa 4

    Escolher um caminho

    Para cada prefixo recebido por mais de um vizinho, o roteador elege um caminho só.

  5. Etapa 5

    Repassar adiante

    O caminho escolhido é anunciado aos outros vizinhos, com o ASN local acrescentado ao AS_PATH.

  6. Etapa 6

    Manter ou retirar

    Mensagens KEEPALIVE mostram que a sessão vive; quando um destino some, um UPDATE de retirada avisa os vizinhos.

Nada é recalculado de tempos em tempos: depois da troca inicial, só circulam as mudanças. Por isso uma sessão estável quase não gera tráfego de controle.

As quatro mensagens do BGP e o papel de cada uma
MensagemQuando aparecePara que serve
OPENLogo depois da conexão TCPApresentar o ASN, o router-id e os recursos suportados
UPDATENa troca inicial e a cada mudançaAnunciar prefixos novos ou retirar os que sumiram
KEEPALIVEEm intervalos regularesProvar que o vizinho continua respondendo
NOTIFICATIONQuando algo dá erradoExplicar o erro e encerrar a sessão

A etapa 4 tem regras próprias e uma ordem fixa de critérios. O guia sobre como o BGP faz a seleção da melhor rota percorre essa ordem com um exemplo de IX.br e trânsito.

Como o AS_PATH impede que um anúncio ande em círculo

Cada rede que repassa um anúncio coloca o próprio ASN no começo do AS_PATH. Se um roteador recebe uma rota que já traz o número dele, sabe que ela deu a volta e a descarta.

Por isso o BGP é chamado de protocolo de vetor de caminho: ele não conhece enlaces nem custos, só a lista de redes até o destino. Essa lista também serve de critério de escolha, porque menos redes no caminho costuma significar um trajeto mais direto.

Na prática: o caminho do bloco de um provedor até a internet

Acompanhar um único anúncio ajuda a enxergar o mecanismo inteiro. No exemplo, os ASNs e o bloco são de documentação.

  1. Origem: o provedor AS 64500 anuncia 203.0.113.0/24 ao trânsito AS 64496, numa sessão eBGP.
  2. Primeiro filtro: o trânsito confere se o bloco está registrado em nome do provedor e se o ROA bate; só então aceita.
  3. Repasse: o trânsito anuncia o bloco aos vizinhos dele com o AS_PATH 64496 64500.
  4. Propagação: cada rede seguinte acrescenta o próprio ASN e repassa, até o anúncio alcançar a internet inteira.
  5. Volta do tráfego: quem quer falar com um assinante do provedor segue o caminho que escolheu entre os anúncios recebidos.
Como esse anúncio aparece na tabela de uma rede distante (formato ilustrativo; cada fabricante exibe os campos de um jeito)
Prefixo:        203.0.113.0/24
AS_PATH:        64511 64496 64500
Próximo salto:  198.51.100.9
ORIGIN:         IGP
LOCAL_PREF:     100
Estado:         escolhida, instalada na tabela

O último número do AS_PATH, 64500, é a origem do anúncio. É ele que a validação RPKI compara com o ROA do bloco para decidir se a rota é válida, inválida ou desconhecida.

Vai anunciar o seu bloco pela primeira vez?

Nos serviços de BGP, um Especialista prepara o ASN, o ROA, as sessões e os filtros, e confere o anúncio do lado de fora antes de encerrar.

Pedir análise da borda BGP do seu provedor

O que acontece quando o anúncio é retirado

Se o provedor perde o link com o trânsito, a sessão cai e o trânsito envia aos vizinhos um UPDATE de retirada daquele prefixo. A notícia se espalha pelo mesmo caminho do anúncio original.

Se houver um segundo link, as redes passam a usar o anúncio que chegava por ele. É assim que o multihoming BGP mantém o provedor acessível quando uma operadora falha.

eBGP e iBGP, as duas formas de sessão

Sessão entre redes diferentes é eBGP; sessão entre roteadores do mesmo AS é iBGP. O protocolo é o mesmo, mas as regras de repasse e de próximo salto mudam.

O eBGP é o que o provedor tem com trânsitos, com o IX.br e com clientes que têm ASN. O iBGP aparece quando a borda ganha um segundo roteador e as rotas aprendidas num precisam chegar ao outro; o guia de configuração de iBGP mostra esse desenho.

Quando um provedor precisa rodar BGP?

BGP passa a ser necessário quando o provedor quer controlar por onde o tráfego entra e sai, e isso exige ASN e bloco próprios. Com um link só e IP da operadora, rota estática resolve.

Situações comuns de provedor e se cada uma pede BGP
SituaçãoPrecisa de BGP?Por quê
Um link, IP emprestado pela operadoraNãoA operadora anuncia o bloco por você
Um link, ASN e bloco própriosSimSó o BGP anuncia o seu bloco com o seu ASN
Dois trânsitosSimPara trocar de link sozinho quando um cai e dividir o tráfego
Entrada no IX.brSimAs sessões com os route servers são eBGP
Caches de conteúdo dentro da redeSim, na maioria dos casosOs caches recebem as rotas dos assinantes por BGP

Para quem ainda não tem número, a solicitação de ASN e blocos IP é o primeiro passo antes de qualquer sessão.

Erros comuns de quem está começando com BGP

Os erros de iniciante quase sempre vêm de tratar o BGP como um protocolo interno, que confia em tudo o que recebe. No BGP, a regra é o contrário: só passa o que a política permite.

Evite

  • Aceitar tudo o que o vizinho manda, sem filtro de entrada.
  • Anunciar tudo o que a borda conhece, sem filtro de saída.
  • Anunciar o bloco sem ROA e sem objeto de rota no IRR.
  • Esperar que o BGP escolha o link mais rápido ou mais vazio.
  • Redistribuir a tabela BGP dentro do OSPF.
  • Deixar a sessão sem monitoramento e descobrir a queda pelo assinante.

Os dois primeiros itens são os que causam incidentes visíveis na internet inteira. Um provedor que repassa as rotas de um trânsito para o outro pode atrair tráfego que não consegue carregar.

Por que uma queda de sessão pode demorar a ser percebida?

Sem outro mecanismo, o roteador só declara o vizinho perdido quando o tempo de espera, o hold time, acaba sem nenhuma mensagem. A RFC 4271 sugere 90 segundos para esse tempo, com KEEPALIVE a cada terço dele.

Noventa segundos mandando tráfego para um link morto é muito para um provedor. Por isso as bordas usam BFD, que detecta a queda do enlace em frações de segundo, e o monitoramento de BGP, que avisa a equipe na hora.

Checklist de referência para a primeira sessão BGP

Antes de pedir a primeira sessão a uma operadora, confira os itens abaixo. Eles evitam a maior parte dos problemas que aparecem nos primeiros dias.

Marque o que já está pronto no seu provedor

  • O ASN e os blocos IPv4 e IPv6 estão registrados em nome do provedor.
  • O ROA de cada bloco foi criado com o ASN e o tamanho máximo de prefixo certos.
  • Os objetos de rota estão no IRR, para a operadora gerar os filtros dela.
  • A política de saída anuncia só os blocos próprios e os de clientes com ASN.
  • A política de entrada descarta faixas privadas, o próprio bloco e prefixos longos demais.
  • Existe monitoramento da sessão e uma cópia da configuração fora do roteador.

Cada item em aberto é um problema adiado para o dia da ativação. Os quatro primeiros, em especial, dependem de terceiros e levam tempo para ficar prontos.

Com a lista completa, a configuração em si é a parte curta do trabalho. O guia sobre como configurar BGP no MikroTik mostra os comandos no RouterOS 7, e o de sessão BGP que não sobe ajuda se a ativação travar.

A Táquion Tech configura a borda BGP de provedores em todo o Brasil à distância, do pedido do ASN à primeira sessão no ar, e entrega a documentação junto.

Perguntas frequentes

O que é BGP em redes de computadores?

É o protocolo de roteamento que liga redes independentes, chamadas de sistemas autônomos. Cada rede anuncia às vizinhas os blocos de IP que alcança, e a internet é formada pela soma desses anúncios.

O BGP é um protocolo interno ou externo?

É um protocolo de roteamento externo, feito para a troca entre redes de donos diferentes. Ele também roda dentro de um AS, como iBGP, mas só para distribuir as rotas externas; o mapa interno fica com OSPF ou IS-IS.

Qual porta o BGP usa?

A porta TCP 179. Se um firewall no caminho bloqueia essa porta, a sessão não sobe, mesmo com todos os outros dados certos.

Qual a diferença entre BGP e rota estática?

A rota estática é escrita à mão e não muda sozinha quando um link cai. O BGP aprende as rotas dos vizinhos, troca de caminho automaticamente e permite anunciar o seu bloco para a internet.

Provedor pequeno precisa ter ASN próprio?

Não é obrigatório, mas sem ASN o provedor depende da operadora para anunciar os endereços e fica preso a ela. Quem planeja um segundo link ou o IX.br costuma pedir o número antes, porque o processo leva tempo.

Thiago Manoel

Responsável técnico da Táquion Tech · Registro profissional [PREENCHER]

Mais de 15 anos em operações de rede, com gestão de infraestruturas de TI, administração de data centers e condução de equipes em migrações de TI e telecomunicações, com foco em alta disponibilidade e segurança.

A Táquion Tech é uma empresa de engenharia de redes de Balneário Camboriú (SC) que projeta, opera e dá suporte a redes de provedores de internet e de empresas.

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Fontes

  1. RFC 4271, A Border Gateway Protocol 4 (BGP-4): mensagens, atributos, AS_PATH e tempos de espera sugeridos.
  2. RFC 1930, Guidelines for creation, selection, and registration of an Autonomous System: definição de sistema autônomo e de quando uma rede precisa de ASN.
  3. Border Gateway Protocol (Wikipédia): visão geral do protocolo e da sua história.

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