O que é ASN em redes: o número da sua rede explicado para provedores
O que é ASN em redes: é o número que identifica um sistema autônomo, ou seja, um conjunto de redes com uma só política de roteamento, como uma operadora ou um provedor. É por ele que as outras redes sabem quem originou cada bloco de IP anunciado na internet e por quais redes o tráfego passa até chegar lá.
Resumo
- O sistema autônomo é a rede vista de fora, e o ASN é o número que dá nome a ela nas trocas de rota.
- Há números públicos, privados e reservados, e só o público aparece na internet com o nome do seu provedor.
- Provedor sem ASN próprio é, para a internet, uma parte da rede da operadora que vende o link.
- A falta do número vira problema na segunda operadora, no IX.br ou na troca de fornecedor.
O que é ASN em redes e o que é um sistema autônomo
Um sistema autônomo é um grupo de prefixos IP operado por uma organização com regras próprias de roteamento, e o ASN é o número único que o identifica. O nome vem do inglês Autonomous System Number.
Pense na internet como milhares de redes independentes que combinam entre si por onde o tráfego passa. Cada uma decide o que anuncia e o que aceita, e o BGP é o protocolo que leva esses anúncios de uma rede para outra. O ASN é a assinatura de cada rede nessa conversa.
O número sozinho não carrega tráfego nem dá velocidade. Ele organiza quem é dono de quais blocos, por quais redes um anúncio passou e com quem cada rede troca rotas. Por isso o ASN é distribuído por registros oficiais, e no Brasil quem faz isso é o Registro.br, dentro da região do LACNIC.
Para um provedor, ter ASN significa deixar de ser cliente de endereços e passar a ser uma rede reconhecida pelo resto da internet. A solicitação de ASN para provedores trata desse passo, do pedido aos cadastros que fazem os blocos serem aceitos.
Como o ASN aparece no caminho de uma rota
Cada rede que repassa um anúncio acrescenta o próprio ASN a uma lista chamada AS_PATH. Lida da direita para a esquerda, essa lista mostra a rede de origem e cada rede intermediária até quem está consultando.
Se um looking glass mostra o caminho 64501 64500 para o bloco 203.0.113.0/24, o AS 64500 é quem originou o prefixo e o AS 64501 é a operadora que o repassou. O guia sobre como funciona BGP detalha o resto dessa troca de anúncios.
Quem distribui os números de ASN
Os números saem de uma cadeia de registros, para que dois donos nunca recebam o mesmo ASN. No topo fica a IANA, que entrega faixas aos cinco registros regionais do mundo.
A América Latina e o Caribe ficam com o LACNIC, e no Brasil o pedido é feito ao Registro.br, que atua como registro nacional dentro dessa região. Por isso as regras de quem pode receber um número seguem a política do LACNIC, com detalhes próprios do registro brasileiro [CONFIRMAR na norma].
Na prática, o provedor não fala com a IANA nem com o LACNIC: todo o processo, das taxas aos ROAs, passa pelo painel do Registro.br, com o login guardado pela própria empresa.
Que tipos de ASN existem?
Existem números públicos, privados e reservados, em dois tamanhos, de 2 e de 4 bytes. O tipo define se o número pode aparecer na internet ou se fica só dentro de uma rede.
| Tipo | Faixa | Para que serve |
|---|---|---|
| Público de 2 bytes | 1 a 64495 | Redes antigas na internet; quase não sobram números livres |
| Público de 4 bytes | Acima de 131071, conforme o registro | Números distribuídos hoje aos provedores novos |
| Privado | 64512 a 65534 e 4200000000 a 4294967294 | Uso interno ou sessão com uma única operadora, sem aparecer na internet |
| Documentação | 64496 a 64511 e 65536 a 65551 | Exemplos em manuais e artigos, nunca em rede real |
| Especiais | 0, 23456 e 65535 | AS 0 em ROA de bloco que ninguém deve anunciar; 23456 para roteador sem suporte a 4 bytes |
As faixas de documentação e as privadas estão descritas em RFCs, e a tabela resume o que um provedor precisa reconhecer na prática [CONFIRMAR na norma]. Os exemplos deste artigo usam números de documentação justamente para não apontar para nenhuma rede de verdade.
ASN de 4 bytes e roteador antigo
Os números de 2 bytes acabaram para novos pedidos, e o formato de 4 bytes passou a ser o padrão. Roteadores atuais tratam esse formato sem problema, mas equipamento muito antigo pode mostrar o AS 23456 no lugar do número real.
Alguns sistemas também escrevem o mesmo número em notação com ponto, em que 1.10 equivale a 65546. Vale saber ler as duas formas antes de copiar o número para um filtro ou para o cadastro de uma operadora.
O que é ASN para o provedor de internet, na prática
Para o provedor, o ASN é o que separa usar a rede da operadora de ter rede própria na internet. Sem ele, os blocos e as rotas do provedor pertencem a outra empresa.
Sem ASN
Provedor dentro da operadora
Os IPs dos assinantes são da operadora e saem no anúncio dela. Para o resto da internet, o provedor não existe.
Com ASN
Provedor com rede própria
Os blocos saem com o número do provedor na origem e podem ser anunciados por qualquer operadora contratada.
Com ASN e IX.br
Provedor trocando rota direto
Além do trânsito, o provedor troca tráfego com outras redes no ponto de troca e recebe caches de conteúdo.
A mudança de um degrau para o outro não altera a fibra nem a OLT. Muda quem é dono dos endereços e quem decide por onde o tráfego entra e sai.
No primeiro degrau, trocar de operadora significa trocar o endereço de todos os assinantes, refazer o CGNAT e avisar quem usa IP fixo. No segundo, a troca vira uma mudança de sessão na borda, porque os blocos continuam com o mesmo dono.
Está na hora de o provedor ter número próprio?
Na solicitação de ASN, um Especialista avalia o momento da rede, prepara o pedido no seu CNPJ e deixa os blocos prontos para o primeiro anúncio.
O que fica ligado ao ASN do provedor
O número em si é só a ponta de um conjunto de cadastros que andam juntos. Quando alguém consulta o ASN do seu provedor, encontra estas informações:
- Titular: a empresa dona do número, que deve ser sempre o CNPJ do provedor.
- Blocos de IP: os prefixos IPv4 e IPv6 que o provedor pode anunciar com esse número.
- Contatos: os endereços técnico e de abuso que outras redes usam para reclamar ou avisar.
- ROAs: as autorizações que dizem quais prefixos o número pode originar.
- Política pública: cadastro no PeeringDB com pontos de troca, capacidade e contato de interconexão.
Quando a falta de ASN vira problema
A falta de ASN vira problema quando o provedor quer mais de uma saída para a internet ou precisa trocar de fornecedor sem parar a base. Antes disso, ela costuma passar despercebida.
Marque o que já acontece ou está nos planos do seu provedor
- Vai contratar uma segunda operadora de trânsito.
- Quer trocar de operadora e o contrato atual prende os endereços dos assinantes.
- Recebeu convite ou proposta para entrar no IX.br da sua região.
- Quer receber cache de conteúdo de grandes plataformas dentro da rede.
- Comprou ou vai comprar outro provedor que tem blocos próprios.
- Precisa planejar o IPv6 sem depender do prefixo cedido pela operadora.
Uma marca já justifica olhar o ASN com cuidado. Duas ou mais indicam que o número próprio deixou de ser opção e passou a ser pré-requisito do próximo passo da rede.
A segunda operadora é o gatilho mais comum, porque é nela que o provedor descobre que dois links sem ASN não se substituem numa queda. O artigo sobre multihoming mostra o que muda quando as duas saídas anunciam o mesmo bloco.
Na prática: quando outra rede anuncia o seu bloco
Com ASN e blocos próprios vem também a responsabilidade de proteger o anúncio. Se outra rede, por erro ou má fé, anuncia o seu prefixo, parte do tráfego dos assinantes pode ir para o lugar errado.
A defesa começa nos ROAs, que dizem a quem valida rotas qual ASN pode originar cada bloco. A criação de ROAs mostra como publicar essas autorizações sem invalidar o próprio anúncio.
ASN público ou privado: qual o provedor precisa?
O ASN privado serve quando o provedor tem dois links da mesma operadora e ela anuncia os blocos por ele. O público é necessário para operadoras diferentes, ponto de troca e blocos que ficam com o provedor.
Com o número privado, a operadora retira o seu ASN do caminho antes de repassar a rota, e o bloco aparece na internet como se fosse dela. Funciona para redundância simples, mas não sobrevive a uma troca de fornecedor.
O ASN público traz taxas anuais e cadastros para manter em dia, e em troca deixa o provedor livre para escolher trânsito, IX.br e caches. Quem decidiu pelo público encontra as etapas no guia de como tirar ASN para o provedor.
Erros comuns sobre o ASN
Evite estas ideias sobre o ASN
- ASN dá mais velocidade: o número não muda a banda; ele muda quem controla rotas e endereços.
- ASN e IP são a mesma coisa: o ASN identifica a rede, e os blocos de IP são recursos ligados a ela.
- Privado vale como público: o privado some do caminho e prende o provedor à mesma operadora.
- ASN se resolve sozinho: sem contatos, ROAs e cadastro em dia, o número vira passivo em vez de liberdade.
Perguntas frequentes
O que é ASN provedor e por que se fala tanto nisso?
É o número de sistema autônomo registrado no CNPJ do provedor, que permite anunciar blocos próprios por BGP. Fala-se muito porque ele é a condição para ter duas operadoras, entrar no IX.br e trocar de trânsito sem renumerar.
Todo provedor de internet tem ASN?
Não. Muitos provedores pequenos operam com os IPs e o ASN da operadora que vende o link. O número próprio passa a fazer falta quando a rede precisa de mais de uma saída ou de independência do fornecedor.
Como descobrir o ASN de um endereço IP?
Uma consulta whois ao bloco ou um looking glass público mostram o ASN que origina aquele prefixo. No resultado, o último número do caminho é a rede de origem, e o titular aparece nos dados de registro.
Um provedor pode ter mais de um ASN?
Pode, e isso costuma acontecer depois da compra de outro provedor, quando os dois números passam a conviver na mesma empresa. Na maioria dos casos, a operação fica mais simples com um número só, e a unificação é planejada com cuidado para não derrubar anúncios.
O ASN muda quando o provedor troca de operadora?
Não, se o número for público e estiver no CNPJ do provedor. Ele acompanha a empresa, e só as sessões BGP com a operadora nova precisam ser configuradas.
Fontes
- RFC 1930, Guidelines for creation, selection, and registration of an Autonomous System: definição de sistema autônomo e de política de roteamento única.
- RFC 6996, Autonomous System (AS) Reservation for Private Use: faixas de ASN privado de 2 e de 4 bytes.
- RFC 5398, Autonomous System (AS) Number Reservation for Documentation Use: faixas de ASN reservadas para documentação.