Guia explicativo · Multihoming
O que é multihoming: redundância de trânsito para provedores
O que é multihoming: é ligar uma rede a mais de um provedor de acesso à internet ao mesmo tempo, de modo que ela continue alcançável quando um deles falha. Num provedor regional, isso significa ter ASN e blocos próprios anunciados por duas ou mais operadoras de trânsito, com o BGP decidindo o caminho.
Resumo
- O termo vem de "home", a rede de origem; uma rede single-homed tem uma saída, e a multihomed tem saídas por operadoras diferentes.
- No provedor, o multihoming depende de ASN e blocos próprios, porque o endereço do assinante não pode mudar quando o link muda.
- Dois links de empresa com troca automática e NAT não são multihoming no sentido do BGP, mesmo que pareçam.
- Duas operadoras que compram trânsito do mesmo fornecedor podem cair juntas, e aí a redundância existe só no contrato.
O que é multihoming e de onde vem o nome
Multihoming é a condição de uma rede que tem mais de uma saída para a internet, por provedores diferentes, e que continua alcançável quando uma delas para. O nome junta "multi", vários, com "home", a rede que é a casa dos endereços.
A palavra veio do vocabulário de roteamento e é usada em várias camadas, de servidores com duas placas de rede a operadoras inteiras. Num provedor regional, ela tem um sentido preciso: a rede do provedor, identificada pelo seu ASN, aparece para o resto da internet por dois ou mais caminhos ao mesmo tempo.
Na prática, o multihoming é a resposta a uma pergunta simples: o que acontece com os assinantes quando a operadora de trânsito cai? A configuração de BGP multihoming existe para que a resposta seja "quase nada", com o tráfego indo para a operadora que ficou de pé.
| Termo | O que quer dizer | Protege contra |
|---|---|---|
| Single-homed | Uma saída, por uma operadora | Nada; a queda do link ou da operadora derruba a rede |
| Dual-homed | Duas conexões com a mesma operadora | Queda de um enlace ou de uma porta, não da operadora |
| Multihomed | Saídas por duas ou mais operadoras diferentes | Queda de um enlace e de uma operadora inteira |
A divisão segue a terminologia da RFC 4116, que descreve as práticas de multihoming em IPv4 e os seus limites. [CONFIRMAR na norma] O ponto central é que só a ligação com operadoras diferentes protege contra a falha de uma delas.
Como o multihoming funciona numa queda real?
Em dia normal, a internet vê os seus blocos pelas duas operadoras e escolhe um caminho para cada destino. Quando uma cai, os anúncios por ela somem, e o tráfego converge para o caminho que sobrou.
Dia normal
Dois caminhos anunciados
Os mesmos blocos saem pelas operadoras A e B, e cada rede da internet escolhe por qual chegar.
Falha
A operadora A para
A sessão BGP com a A cai, e o roteador de borda retira as rotas recebidas por ela.
Convergência
Os anúncios pela A somem
As outras redes deixam de ver o caminho pela A e recalculam a rota pela B.
Operação
Tudo passa pela B
Assinantes seguem com o mesmo endereço; conexões longas podem ser refeitas, mas a navegação continua.
O tempo entre a falha e a operação normal depende de quão rápido a borda percebe a queda e de quanto as outras redes demoram para recalcular.
O detalhe que faz tudo funcionar é o endereço. Como os blocos pertencem ao provedor, e não a uma operadora, o assinante continua com o mesmo IP do começo ao fim. É isso que separa o multihoming de uma simples troca de link.
O que o resto da internet enxerga
Para uma rede distante, o seu provedor é um número de ASN no fim de um caminho. Com multihoming, ela recebe duas versões desse caminho, uma passando por cada operadora, e guarda a outra como reserva.
É possível ver isso de fora, em qualquer looking glass público: consultando um bloco seu, aparecem os caminhos pelas duas operadoras. Se aparece só um, o multihoming não está completo, por mais que os dois links estejam ligados. O guia de como funciona o BGP explica como ler esses caminhos.
Ponto de troca não é segunda operadora
Uma porta no IX.br melhora o desempenho para as redes que estão no ponto, mas não leva à internet inteira. Se o único trânsito cair, o provedor continua falando com os participantes do IX e perde o resto.
Por isso o ponto de troca soma ao multihoming, mas não o substitui. O guia de sessões com route servers mostra como o IX entra na borda ao lado dos trânsitos.
Multihoming de provedor ou dois links de empresa?
São coisas diferentes com o mesmo objetivo. A empresa com dois links usa um equipamento que troca de saída e faz NAT, enquanto o provedor com multihoming anuncia blocos próprios pelo BGP.
Muita gente chama de multihoming o roteador de empresa com dois links de operadoras diferentes e troca automática. Ele resolve bem a navegação de um escritório, mas cada link tem o seu próprio endereço, e quem está do lado de fora vê o endereço mudar quando a saída troca.
| Ponto | Dois links com troca automática | Multihoming com BGP |
|---|---|---|
| Endereços | Um bloco emprestado por operadora | Blocos próprios, os mesmos pelas duas |
| Quem decide a entrada | Ninguém; cada link recebe só o que é do seu endereço | A internet, guiada pelos seus anúncios |
| Na queda | Endereço muda, conexões abertas caem | Endereço continua, o caminho muda |
| Exige | Roteador com troca de saída | ASN, blocos, sessões BGP e filtros |
| Serve para | Escritório, loja, condomínio | Provedor, empresa com serviços publicados |
Para um provedor, a primeira coluna não funciona: os assinantes recebem endereços de um bloco, e trocar o bloco inteiro a cada queda derrubaria todas as sessões. O multihoming de verdade passa pela solicitação de ASN e pelos blocos em nome do provedor.
Seu provedor tem dois links, mas não confia na troca?
A Táquion Tech configura o multihoming com as duas operadoras, divide o tráfego pelo seu contrato e cronometra a troca desligando cada link de propósito.
Quando a falta de multihoming vira problema
A falta de multihoming vira problema no dia em que a única operadora cai e a base inteira para junto. Antes disso, ela aparece como risco aceito sem que ninguém tenha feito a conta.
Um provedor pequeno com uma operadora confiável pode passar meses sem sentir falta da segunda. O problema é que a falha de trânsito não manda aviso: um rompimento de fibra, um erro de configuração na operadora ou uma manutenção mal comunicada derruba todos os assinantes ao mesmo tempo, e não há o que fazer do seu lado.
Marque o que vale para o seu provedor hoje
- Toda a internet dos assinantes depende de uma única operadora.
- Já houve uma queda da operadora que parou a base inteira.
- O provedor atende empresas que cobram disponibilidade em contrato.
- Existe um segundo link, mas ele nunca assumiu o tráfego num teste.
- Os endereços dos assinantes são emprestados pela operadora.
- A base cresceu e uma queda hoje afeta muito mais gente que antes.
Duas marcas ou mais indicam que uma queda de operadora vai custar caro em cancelamentos e chamados. A partir daí, o multihoming deixa de ser projeto futuro e passa a ser prioridade.
A conta que ninguém fez
O custo de uma queda de trânsito se calcula com os seus próprios números. Multiplique as horas sem internet pelos assinantes afetados e some os chamados, as visitas desnecessárias e os cancelamentos do mês seguinte.
Compare esse valor com o custo mensal de um segundo trânsito e da configuração. Para muitos provedores, uma única queda longa por ano já paga a diferença, mas a conta precisa ser feita com os dados da sua rede.
O que é multihoming de fachada e como reconhecer
Multihoming de fachada é o que tem dois contratos e uma só dependência escondida, que faz os dois links caírem juntos. Ele só aparece na queda, por isso precisa ser procurado antes.
Há quatro formas comuns de a redundância existir no papel e falhar na prática. Todas são descobertas com perguntas às operadoras, uma consulta de fora e um teste de queda.
- Fornecedor em comum: duas operadoras regionais que revendem o trânsito do mesmo grande fornecedor caem juntas quando ele falha.
- Mesmo trajeto físico: as duas fibras chegam pelo mesmo poste ou pelo mesmo prédio, e um rompimento corta as duas.
- Anúncio incompleto: um bloco sai só por uma operadora, e os assinantes dele ficam sem reserva.
- Reserva nunca testada: a sessão está de pé, mas filtros ou registros errados impedem o tráfego de passar por ela.
Na prática: duas operadoras, um fornecedor só
Um caso típico mostra como o fornecedor em comum passa despercebido. O provedor contrata duas operadoras regionais diferentes, com empresas, contratos e fibras distintos.
- Sintoma: numa noite, as duas sessões continuam estabelecidas, mas a navegação para quase todos os destinos para.
- Consulta: o looking glass mostra que os caminhos pelas duas operadoras passam pelo mesmo sistema autônomo logo em seguida.
- Causa: esse fornecedor em comum teve uma falha, e as duas operadoras perderam o trânsito ao mesmo tempo.
- Correção: o provedor troca uma das operadoras por outra com saída própria e confere a diversidade pelos caminhos.
A conferência leva poucos minutos: basta olhar, nos caminhos recebidos de cada operadora, qual é o sistema autônomo seguinte. Se for o mesmo nas duas, a diversidade é menor do que parece. Para aprender a ler os caminhos e dividir a carga entre eles, veja como fazer BGP com dois links.
Perguntas frequentes
Multihoming é a mesma coisa que redundância de link?
Não exatamente. Redundância de link pode ser dois cabos com a mesma operadora; multihoming exige operadoras diferentes e endereços próprios, e por isso protege também contra a falha da operadora inteira.
Dá para ter multihoming sem ASN próprio?
Em casos raros, uma operadora pode anunciar o bloco de um cliente com o ASN dela, mas isso limita o controle e depende de acordo entre as operadoras. Para provedor, o caminho normal é ter ASN e blocos próprios.
Multihoming deixa a internet mais rápida?
Não por si só. Ele garante que a rede continue no ar, e a escolha de caminhos melhores para cada destino vem da engenharia de tráfego feita sobre os dois links.
Quantas operadoras um provedor precisa para ter multihoming?
Duas já caracterizam multihoming. Provedores maiores costumam ter três ou mais, além do ponto de troca, para não depender de uma só operadora quando outra estiver em manutenção.
Multihoming funciona também para IPv6?
Funciona do mesmo jeito, com o bloco IPv6 próprio anunciado pelas duas operadoras. Vale conferir se as duas oferecem sessão IPv6, porque nem toda operadora regional entrega trânsito IPv6 nativo.
Fontes
- RFC 4116, IPv4 Multihoming Practices and Limitations: práticas de multihoming em IPv4 e seus limites.
- RFC 1930, Guidelines for creation, selection, and registration of an Autonomous System: quando uma rede com mais de um provedor precisa de ASN próprio.