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Guia técnico · RPKI

Criação de ROAs: guia prático para provedores

Criação de ROAs: é registrar, no portal de quem alocou o bloco, qual ASN pode anunciar cada prefixo do provedor e até que tamanho. No Brasil isso é feito no Registro.br, com o RPKI no modo hospedado, e leva poucos minutos por prefixo quando o inventário dos anúncios já está pronto.

Resumo

  • O ROA diz qual ASN pode anunciar um prefixo e até que tamanho, e quem valida descarta o anúncio que não bate.
  • A criação começa pelo inventário, porque todo prefixo que sai da borda precisa caber num ROA com a origem certa.
  • O tamanho máximo deve cobrir só o que vai ao ar, já que a folga abre brecha para sequestro com o seu ASN forjado.
  • Criar ROA protege os seus blocos, e conferir as rotas recebidas no roteador é a outra metade do RPKI.

O que é um ROA e o que ele autoriza

ROA é a sigla em inglês para autorização de origem de rota, um registro assinado que liga um prefixo a um ASN e a um tamanho máximo. Ele não muda nada no seu roteador e só publica para o mundo quem tem direito de anunciar o bloco.

Um ROA típico diz que o prefixo 198.51.100.0/22 pode ser anunciado pelo AS 64500 com tamanho máximo /22. Quando outra rede recebe esse prefixo via BGP com outra origem, ou fatiado em /24, ela sabe que o anúncio não foi autorizado pelo titular do bloco.

O ROA é a peça de publicação do RPKI, a infraestrutura de chaves públicas que amarra cada bloco de IP ao seu titular. A implantação de RPKI para provedores começa por ele, porque sem ROA as redes que validam não conseguem separar o seu anúncio de um anúncio falso.

Campos de um ROA e o que cada um define
CampoO que defineExemplo
PrefixoO bloco protegido, IPv4 ou IPv6198.51.100.0/22
ASN de origemQuem pode anunciar o blocoAS 64500
Tamanho máximoAté que prefixo mais específico o anúncio é válido/22, /23 ou /24
ValidadePeríodo em que a assinatura valeRenovada pelo portal [CONFIRMAR prazo no modo hospedado]

Criar ROA protege os seus blocos, mas não filtra nada

O ROA só produz efeito nas redes que validam as rotas que recebem. Parte das operadoras de trânsito e dos pontos de troca, como o IX.br, já descarta anúncios inválidos [CONFIRMAR política atual do IX.br], e é nelas que o seu ROA passa a contar.

Para a sua própria rede recusar prefixos sequestrados de terceiros, o trabalho é outro e acontece no roteador, com validadores e política de entrada. Esse lado está no guia de validação de origem de rotas, que parte do princípio de que os seus ROAs já existem.

Como funciona a criação de ROAs?

O provedor recebe um certificado de recursos ligado aos blocos que tem e usa esse certificado para assinar cada ROA. Os ROAs ficam num repositório público, de onde os validadores do mundo inteiro os baixam e conferem.

Da alocação do bloco ao ROA lido pelos validadores
  1. 1 · Alocação

    Bloco e ASN no Registro.br

    O provedor tem blocos IPv4 e IPv6 e um ASN alocados pelo Registro.br, que fica abaixo do LACNIC na cadeia do RPKI.

  2. 2 · Certificado

    Certificado de recursos

    Ao ativar o RPKI no portal, o provedor recebe um certificado que prova quais blocos são dele.

  3. 3 · ROA

    Autorização assinada

    Cada ROA criado é assinado com esse certificado e publicado no repositório do registro.

  4. 4 · Validadores

    Leitura pelo mundo

    Validadores de outras redes baixam o repositório em ciclos e repassam a lista aos roteadores delas.

Em nenhuma dessas etapas o provedor mexe no roteador.

Na prática, a criação de ROAs exige três coisas: acesso de administrador aos recursos de numeração no portal, um ASN já alocado e a lista exata do que a borda anuncia. Sem a lista, o ROA vira palpite, e palpite errado transforma uma rota legítima em inválida.

Modo hospedado ou delegado: qual usar?

No modo hospedado, o certificado e as chaves ficam no sistema do registro, e o provedor só cria e apaga ROAs pela tela. No delegado, o provedor roda a própria autoridade certificadora e o repositório, com mais trabalho.

Para um provedor regional, o hospedado costuma ser a escolha sensata, porque não há servidor a manter nem chave a proteger. O delegado só se justifica para quem tem muitos blocos, várias equipes mexendo neles ou automação própria [CONFIRMAR se o Registro.br oferece o modo delegado].

Inventário dos anúncios antes do primeiro ROA

Antes de criar qualquer ROA, liste tudo o que a sua borda anuncia, com prefixo, tamanho e ASN de origem. Anúncio que fica de fora do inventário corre o risco de virar inválido logo depois da publicação.

O erro mais caro nessa tarefa é publicar uma autorização que não bate com a rede real. Um ROA para o /22 com tamanho máximo 22 torna inválidos os /24 que o provedor anuncia para dividir tráfego entre operadoras, e quem valida passa a descartá-los.

  1. Liste os blocos: todos os blocos IPv4 e IPv6 em nome do provedor, inclusive os que ainda não estão em uso.
  2. Liste os anúncios: os prefixos que cada roteador de borda anuncia hoje, incluindo os /24 usados para dividir tráfego.
  3. Liste quem anuncia: o ASN de origem de cada anúncio, inclusive blocos anunciados por clientes com ASN próprio.
  4. Compare: todo anúncio precisa caber num ROA com o ASN certo e o tamanho certo.
Prefixos originados pelo próprio AS e anunciados a uma operadora, em sintaxe Cisco IOS-XE
show bgp ipv4 unicast regexp ^$
show bgp ipv6 unicast regexp ^$
show bgp ipv4 unicast neighbors 192.0.2.1 advertised-routes

A saída desses comandos em cada roteador de borda, somada aos anúncios feitos por clientes, forma a lista que vai virar ROAs. Confira também o que sai para cada operadora, porque filtros de saída diferentes por sessão às vezes escondem um prefixo que só vai por um link; a configuração de prefix-lists ajuda a deixar esses filtros legíveis.

Blocos cedidos a clientes com ASN próprio

Quando o provedor cede parte do bloco a um cliente corporativo ou a um provedor menor que anuncia com o próprio ASN, o ROA desse pedaço precisa autorizar o ASN do cliente. Se o ROA do agregado tiver tamanho máximo curto e não existir esse segundo ROA, o anúncio do cliente nasce inválido.

Se você também anuncia o mesmo pedaço como reserva, com o seu ASN, crie dois ROAs para o prefixo, um para cada origem. O RPKI aceita várias autorizações para o mesmo bloco, e a rota é válida quando bate com qualquer uma delas.

Qual tamanho máximo usar em cada ROA?

Use o tamanho máximo igual ao prefixo que você realmente anuncia e crie ROAs separados para os mais específicos que vão ao ar. A RFC 9319 recomenda evitar folga nesse campo justamente por segurança.

Folga no tamanho máximo abre espaço para um ataque simples: alguém anuncia um /24 do seu bloco colocando o seu ASN como origem forjada. O ROA aceita, porque ASN e tamanho batem, e o prefixo mais específico vence a disputa de rota em toda a internet.

Exemplos de escolha de tamanho máximo para um bloco /22
Como o bloco é anunciadoROA indicado
Só o /22 inteiro198.51.100.0/22, tamanho máximo 22
O /22 e dois /23Um ROA para o /22 e um para cada /23
O /22 e todos os /24198.51.100.0/22, tamanho máximo 24
Bloco ainda sem usoROA com AS0, que torna qualquer anúncio inválido

A terceira linha é a exceção aceitável: se todos os /24 vão ao ar, a folga não deixa nenhum pedaço livre para o atacante. Basta que um /24 saia do ar para a recomendação mudar, e aí o certo é trocar por ROAs individuais.

Quer os ROAs conferidos antes de publicar?

Na implantação de RPKI, um Especialista cruza o inventário com o que cada borda anuncia, cria os ROAs com tamanho justo e confere tudo de fora antes de seguir.

Pedir proposta de implantação de RPKI

Quando o AS0 protege e quando atrapalha

Um ROA com origem AS0 diz que ninguém deve anunciar aquele bloco, o que protege faixas guardadas para expansão contra uso indevido enquanto estão paradas.

O problema aparece no dia em que o bloco entra em uso. Crie o ROA com o seu ASN antes do primeiro anúncio e só então apague o AS0, ou o prefixo nasce inválido e é descartado por quem valida, sem nenhum alarme no seu roteador.

Como criar ROA no Registro.br, passo a passo

Com o inventário pronto, o trabalho no portal segue sempre a mesma ordem: ativar o RPKI, criar um ROA por linha da lista e conferir de fora. As telas mudam com o tempo, mas as etapas continuam as mesmas.

Os nomes de menu abaixo descrevem o caminho mais comum e podem mudar entre versões. [CONFIRMAR na versão atual do painel]

  1. Entre no Registro.br: faça login com o usuário que administra os recursos de numeração e escolha a entidade titular do bloco. [CONFIRMAR na versão atual do painel]
  2. Abra a numeração: no painel da entidade, vá à área de blocos IP e ASN e, dentro dela, à opção de RPKI. [CONFIRMAR na versão atual do painel]
  3. Ative o RPKI: na primeira vez, aceite o termo e ative o certificado do provedor no modo hospedado; isso se faz uma vez por entidade.
  4. Cadastre cada ROA: informe prefixo, ASN de origem e tamanho máximo, uma linha do inventário por vez, e confirme.
  5. Revise a lista: confira na tela de ROAs se prefixo, ASN e tamanho batem com o inventário antes de sair.
  6. Espere a publicação: os validadores do mundo leem os ROAs em ciclos de minutos a poucas horas.
  7. Confira o estado: consulte um validador público e veja se cada anúncio aparece como válido.

Depois de publicar, a próxima etapa é ligar a validação nos seus roteadores. Para conter ataques volumétricos sem descartar todo o tráfego de um destino, veja também a configuração de FlowSpec.

Exemplo: provedor com um /22 IPv4 e um /32 IPv6

Imagine um provedor com o AS 64500, o bloco 198.51.100.0/22 e o bloco 2001:db8::/32. Ele anuncia o /22, três /24 para dividir tráfego entre duas operadoras e o /32 IPv6, e cedeu o 198.51.103.0/24 a um cliente com o AS 64510.

ROAs criados no exemplo, um por anúncio real
PrefixoASN de origemTamanho máximoMotivo
198.51.100.0/22AS 64500/22Agregado anunciado às duas operadoras
198.51.100.0/24AS 64500/24Fatia da divisão de tráfego
198.51.101.0/24AS 64500/24Fatia da divisão de tráfego
198.51.102.0/24AS 64500/24Fatia da divisão de tráfego
198.51.103.0/24AS 64510/24Pedaço cedido ao cliente, que anuncia com o ASN dele
2001:db8::/32AS 64500/32Bloco IPv6 anunciado inteiro

São seis ROAs para dois blocos, e nenhum deles usa folga no tamanho máximo. Se amanhã o provedor quiser anunciar um /48 IPv6 para um cliente, cria o ROA daquele /48 no mesmo dia em que o anúncio entra.

Erros comuns na criação de ROAs

Quase todos os erros vêm de ROA que não acompanha a rede, seja por anúncio esquecido, folga no tamanho ou mudança sem atualização. O efeito aparece fora da sua rede, por isso costuma demorar a ser notado.

Evite

  • Criar ROA só para o bloco agregado e esquecer os mais específicos anunciados.
  • Usar tamanho máximo maior que o necessário.
  • Esquecer de atualizar o ROA depois de trocar de ASN ou mover um bloco para cliente.
  • Criar ROAs para IPv4 e esquecer o IPv6.
  • Deixar o certificado vencer por falta de dono do processo.
  • Manter o ROA AS0 num bloco que já começou a ser anunciado.

O sintoma típico é o assinante dizer que um site ou um jogo específico não abre, enquanto o resto funciona: as redes que validam descartam a sua rota, e as que não validam seguem normais.

ROA esquecido depois de uma mudança na rede

Troca de ASN, fusão com outro provedor, bloco novo ou cliente que sai levando o ASN dele: cada uma dessas mudanças altera a origem de algum anúncio. A regra é atualizar o ROA antes da mudança entrar no ar, nunca depois.

Para isso funcionar, criar e revisar ROAs precisa constar no procedimento de mudança da borda, junto com filtros e anúncios. A gestão de BGP inclui essa revisão periódica para quem prefere não depender da memória da equipe.

Checklist depois de publicar os ROAs

Confira o resultado em fontes externas, e não só no portal onde os ROAs foram criados. O que importa é como o resto da internet enxerga os seus anúncios.

Marque o que já foi conferido depois da publicação

  • Cada prefixo anunciado aparece como válido num validador público.
  • Nenhum prefixo anunciado aparece como inválido.
  • Blocos de clientes com ASN próprio têm ROA com o ASN do cliente.
  • Os prefixos IPv6 têm ROA, assim como os IPv4.
  • Blocos sem uso estão com AS0 ou têm o motivo anotado para não estar.
  • Existe um responsável e uma data de revisão no calendário da equipe.

Item sem marca é rota que pode cair nas redes que validam ou bloco exposto a sequestro. Corrija antes de seguir para a validação nos roteadores.

Se o provedor troca tráfego no IX.br, confira também se os prefixos continuam chegando pelas sessões com os servidores de rotas depois da publicação. O guia de sessões com route servers mostra onde olhar.

A Táquion Tech faz o inventário dos anúncios, cria os ROAs no portal com tamanho justo e confere cada prefixo de fora antes de ativar a validação nas bordas.

Perguntas frequentes sobre criação de ROAs

Como criar ROA no Registro.br sem ser o titular do bloco?

Só cria ROA quem tem permissão sobre os recursos da entidade titular, então o caminho é pedir ao titular que libere o seu usuário ou crie o ROA por você [CONFIRMAR perfis de acesso no painel]. Se o bloco foi cedido por uma operadora, é ela quem cria o ROA autorizando o seu ASN.

ROA errado derruba o meu provedor?

Pode derrubar o acesso a parte da internet, nas redes que validam rotas. Elas descartam a rota inválida e o tráfego de volta aos seus assinantes deixa de chegar, por isso o inventário vem antes de qualquer ROA.

Quanto tempo o ROA leva para valer?

Normalmente de minutos a poucas horas, conforme o ciclo de atualização de cada validador. Vale esperar esse intervalo antes de concluir que algo deu errado.

Preciso de ROA para o bloco do cliente que eu anuncio?

Se o bloco é seu e você o anuncia com o seu ASN, sim, e ele entra no inventário como qualquer outro prefixo. Se o cliente tem ASN próprio e anuncia o pedaço, o ROA leva o ASN dele.

Dá para apagar um ROA criado por engano?

Dá, pelo mesmo portal em que ele foi criado. Antes de apagar, confira se algum anúncio depende dele, porque a rota volta a não encontrada ou passa a inválida se outro ROA cobrir o mesmo bloco.

Serviços ligados a este guia

Thiago Manoel

Responsável técnico da Táquion Tech · Registro profissional [PREENCHER]

Mais de 15 anos em operações de rede, com gestão de infraestruturas de TI, administração de data centers e condução de equipes em migrações de TI e telecomunicações, com foco em alta disponibilidade e segurança.

A Táquion Tech é uma empresa de engenharia de redes de Balneário Camboriú (SC) que projeta, opera e dá suporte a redes de provedores de internet e de empresas.

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Fontes

  1. RFC 9582, A Profile for Route Origin Authorizations: formato e campos do ROA.
  2. RFC 9319, The Use of maxLength in the RPKI: recomendação para limitar o tamanho máximo.
  3. Registro.br, numeração: portal onde provedores brasileiros administram blocos e RPKI.

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