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Guia explicativo · BGP e OSPF

O que é BGP e OSPF: a diferença explicada para provedores

O que é BGP e OSPF: são os dois protocolos de roteamento que sustentam a rede de um provedor, cada um num lado da fronteira. O OSPF faz os roteadores da casa se enxergarem e acharem o caminho interno, e o BGP troca rotas com as redes de fora, como trânsitos, IX.br e caches.

Resumo

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  • Num provedor bem desenhado, os dois trabalham juntos e cada um carrega só o que é dele.
  • O problema aparece quando um faz o papel do outro, como rotas de clientes no OSPF ou BGP redistribuído nele.

O que é BGP e OSPF, em uma frase cada

OSPF é o protocolo que os roteadores de uma mesma rede usam para montar um mapa comum e achar o caminho interno. BGP é o protocolo que redes de donos diferentes usam para dizer umas às outras quais endereços alcançam.

O OSPF, sigla de Open Shortest Path First, é do tipo estado de enlace. Cada roteador conta aos outros quais enlaces tem e quanto custa cada um, todos guardam o mesmo mapa e cada um calcula sozinho o caminho de menor custo até qualquer ponto da rede.

O BGP, sigla de Border Gateway Protocol, é do tipo vetor de caminho. Ele não sabe quantos enlaces existem até o destino; sabe só por quais redes o anúncio passou e aplica as regras que cada rede escreveu, que é o trabalho central dos serviços de BGP para provedores.

Para quem está começando, o guia sobre como funciona BGP detalha sessões, anúncios e AS_PATH. Aqui o foco é outro: o que separa os dois protocolos e por que um provedor precisa de ambos.

Protocolo interno e protocolo externo: a diferença de fundo

A diferença que importa não é técnica, é de confiança. O OSPF assume que todos os vizinhos são da mesma equipe; o BGP assume que cada vizinho é outra empresa, com interesses próprios.

Por isso o OSPF compartilha tudo e aceita tudo o que recebe dos vizinhos da área. O BGP compartilha o mínimo, filtra o que chega e deixa cada rede decidir o que aceitar e por onde mandar o tráfego.

BGP e OSPF lado a lado

A tabela compara os dois pelo que importa na operação de um provedor regional. Repare que eles quase nunca disputam o mesmo trabalho.

Comparação entre OSPF e BGP na operação de um provedor
CaracterísticaOSPFBGP
TipoProtocolo interno (IGP), de estado de enlaceProtocolo externo (EGP), de vetor de caminho
Com quem falaRoteadores da própria rede, descobertos sozinhosVizinhos configurados um a um, de dentro ou de fora
O que conheceTodos os enlaces e o custo de cada umPrefixos e a lista de redes até cada um
Como decideMenor custo somado até o destinoPolítica do dono da rede, depois atributos
Volume típicoDezenas ou centenas de rotas internasAté a tabela completa da internet
Reação a uma falhaRecalcula o mapa em segundos ou menosEspera o vizinho retirar a rota ou a sessão cair
Onde fica no provedorNúcleo, agregação e loopbacksBorda, iBGP entre roteadores e caches

A linha do volume explica boa parte dos problemas. O OSPF foi feito para um mapa pequeno e detalhado; o BGP, para uma lista enorme e resumida. Inverter os papéis faz um deles carregar o que não aguenta.

Por que o OSPF não serve para falar com a operadora?

Porque ligar OSPF com a operadora seria juntar as duas redes num mapa só. Cada mudança num enlace dela faria os seus roteadores recalcularem, e vice-versa, sem nenhum filtro entre as empresas.

Nenhuma operadora aceita isso, e nenhum provedor deveria querer. Entre redes diferentes, o BGP é a única opção usada na internet.

O que é BGP e OSPF na prática: onde cada um roda no provedor

Num provedor típico, o OSPF cobre o caminho entre os roteadores da casa e o BGP cobre a borda e a distribuição das rotas externas. O diagrama mostra o trajeto do tráfego de um assinante até a internet.

Onde OSPF e BGP atuam no trajeto entre o assinante e a internet
  1. Acesso

    OLT e concentrador

    O assinante autentica no concentrador, que conhece o pool de endereços e anuncia esse pool por iBGP.

  2. Agregação e núcleo

    Roteadores internos

    O OSPF liga os roteadores da casa e faz cada loopback ser alcançável pelos outros.

  3. Borda

    Roteador de borda

    Sessões iBGP recebem os pools dos concentradores; sessões eBGP falam com as redes de fora.

  4. Fora da rede

    Trânsitos, IX.br e caches

    Só o BGP passa daqui. A borda anuncia os blocos do provedor e recebe as rotas da internet.

O OSPF não sai da rede do provedor, e o BGP não precisa conhecer os enlaces internos. Um depende do outro apenas num ponto: o próximo salto das rotas BGP é alcançado pelo caminho que o OSPF calculou.

Esse ponto de contato é o que liga os dois mundos. Se o OSPF perde o caminho até o loopback de uma borda, as sessões iBGP com ela caem e as rotas externas somem do núcleo, mesmo com os links de trânsito funcionando.

Seu roteamento interno e a borda foram montados por pessoas diferentes?

Nos serviços de BGP, um Especialista revisa o OSPF, o iBGP e as sessões externas juntos e documenta o papel de cada protocolo na sua rede.

Pedir análise da borda BGP do seu provedor

Exemplo: provedor com dois POPs e dois trânsitos

Um provedor tem um POP em cada cidade, cada um com um roteador de borda e um link de trânsito. Os dois POPs se ligam por fibra própria.

  1. OSPF: carrega os loopbacks das duas bordas, dos concentradores e o enlace entre os POPs.
  2. eBGP: cada borda tem sessão com o seu trânsito e anuncia os blocos do provedor.
  3. iBGP: as bordas e os concentradores trocam os pools de clientes e as rotas externas entre si.
  4. Falha: se o trânsito de um POP cai, o iBGP leva os assinantes dele para a saída do outro, pela fibra entre as cidades.

Sem iBGP, a troca dependeria de rota padrão e de ajustes manuais. Sem OSPF, as bordas não saberiam se alcançar, e o iBGP nem chegaria a subir.

Quando a mistura de BGP e OSPF vira problema?

Vira problema quando um protocolo passa a carregar o trabalho do outro, quase sempre por pressa durante o crescimento. A rede continua funcionando, mas fica lenta para se recuperar e frágil a qualquer erro.

Em muitos provedores, a primeira rede nasce com um roteador só e rotas estáticas. Com o segundo POP entra o OSPF; com o segundo link entra o BGP; e cada etapa é feita com o mínimo necessário para funcionar naquela noite.

Marque o que acontece hoje na sua rede

  • Os pools de clientes e os blocos de CGNAT são anunciados dentro do OSPF.
  • Alguém redistribuiu rotas do BGP no OSPF para resolver uma rota faltando.
  • A queda de um enlace interno derruba sessões BGP que não deveriam depender dele.
  • Há rotas estáticas espalhadas pelos roteadores que ninguém sabe se ainda são usadas.
  • Só uma pessoa sabe explicar por que o tráfego sai por um link e não pelo outro.

Uma marca já indica um protocolo fora do lugar. Duas ou mais mostram que a rede cresceu sem desenho, e cada expansão nova vai aumentar o risco.

O risco de redistribuir o BGP dentro do OSPF

Redistribuir é copiar rotas de um protocolo para o outro. Do BGP para o OSPF, isso pode despejar a tabela inteira da internet num protocolo feito para algumas centenas de rotas.

O efeito vai de roteadores com memória cheia a um OSPF que não para de recalcular e derruba as próprias sessões iBGP que dependiam dele. O guia de configuração de OSPF mostra como deixar o protocolo interno só com o que é dele.

BGP, OSPF ou os dois: como escolher?

A escolha depende de quantos roteadores a rede tem e de quantas saídas para a internet existem. Para a maioria dos provedores com ASN próprio, a resposta é os dois, cada um no seu lugar.

O que usar em cada tipo de rede de provedor
Situação da redeRoteamento internoBorda
Um roteador, um link, IP da operadoraNenhum, só rotas diretasRota estática para a operadora
Um roteador, ASN e bloco própriosNenhum ou OSPF mínimoeBGP com o trânsito
Vários roteadores, uma bordaOSPF ou IS-ISeBGP na borda e iBGP para os concentradores
Vários POPs e duas ou mais bordasOSPF ou IS-ISeBGP em cada borda e iBGP entre todos, com refletor se crescer

O IS-IS cumpre o mesmo papel do OSPF e é comum em redes maiores. O guia de configuração de IS-IS mostra quando ele faz mais sentido; para o BGP, tanto faz qual dos dois está por baixo.

Rede só com BGP, sem protocolo interno

Grandes data centers rodam eBGP em todos os roteadores e dispensam o protocolo interno, como descreve a RFC 7938. Em provedor regional esse desenho é raro, porque a topologia é irregular e a equipe costuma dominar OSPF.

O caminho contrário, rodar só OSPF e nenhum BGP, funciona enquanto o provedor depende de uma operadora só. No dia do segundo link, o BGP deixa de ser opcional.

Erros comuns ao combinar BGP e OSPF

Os erros mais caros são os que funcionam no começo e cobram a conta no crescimento. A lista abaixo reúne os que mais aparecem em revisões de redes de provedores.

Evite

  • Colocar pools de clientes e blocos de CGNAT no OSPF.
  • Redistribuir o BGP no OSPF, ou o OSPF no BGP sem filtro.
  • Montar sessões iBGP entre endereços de enlace em vez de loopbacks.
  • Deixar o OSPF ativo em portas voltadas para clientes ou operadoras.
  • Resolver cada rota faltando com uma rota estática nova.

O quarto item é um risco de segurança, além de desenho. Uma porta de cliente com OSPF ativo permite que um equipamento qualquer entre no seu mapa interno e anuncie o que quiser.

A Táquion Tech revisa o roteamento interno e a borda BGP em conjunto e entrega um desenho que diz o que cada protocolo carrega. O guia de configuração de iBGP mostra a camada que liga os dois.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre BGP e OSPF?

O OSPF roda dentro de uma rede e calcula o caminho de menor custo entre os roteadores dela. O BGP roda entre redes diferentes e troca blocos de endereços segundo a política de cada uma.

O OSPF pode substituir o BGP no provedor?

Não. O OSPF não fala com outras redes de forma segura e não carrega a tabela da internet; ele só substitui o BGP dentro de casa, e mesmo assim apenas para as rotas da infraestrutura.

BGP é mais difícil de configurar que OSPF?

A sintaxe dos dois é parecida em tamanho, mas o BGP exige decisões de política que o OSPF não tem. Um erro no OSPF afeta a sua rede; um erro no BGP pode afetar outras redes da internet.

O que significa redistribuir rotas entre protocolos?

É copiar rotas aprendidas por um protocolo para dentro de outro. Entre BGP e OSPF, isso só deve ser feito com filtro estrito e motivo claro, porque costuma levar rotas demais para o lugar errado.

Preciso de OSPF se tenho só um roteador?

Não. Com um roteador só não há caminho interno a calcular, e o BGP na borda resolve a troca com a operadora. O OSPF entra quando o segundo roteador ou o segundo POP aparecem.

Thiago Manoel

Responsável técnico da Táquion Tech · Registro profissional [PREENCHER]

Mais de 15 anos em operações de rede, com gestão de infraestruturas de TI, administração de data centers e condução de equipes em migrações de TI e telecomunicações, com foco em alta disponibilidade e segurança.

A Táquion Tech é uma empresa de engenharia de redes de Balneário Camboriú (SC) que projeta, opera e dá suporte a redes de provedores de internet e de empresas.

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Fontes

  1. RFC 2328, OSPF Version 2: funcionamento do OSPF como protocolo de estado de enlace.
  2. RFC 4271, A Border Gateway Protocol 4 (BGP-4): funcionamento do BGP como protocolo de vetor de caminho entre sistemas autônomos.
  3. RFC 7938, Use of BGP for Routing in Large-Scale Data Centers: desenho com BGP em todos os roteadores, sem protocolo interno.

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