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Guia técnico · Roteamento interno

Configuração de OSPF: guia prático para provedores

Configuração de OSPF: num provedor, ela serve para uma coisa só, que é fazer cada roteador alcançar o loopback e os enlaces de todos os outros. Rotas de clientes e da internet ficam no BGP, e o OSPF carrega pouco, converge rápido e sustenta as sessões iBGP.

Resumo

  • O OSPF monta o mapa da rede interna e calcula o caminho de menor custo até cada roteador.
  • Loopbacks e enlaces entram no OSPF; blocos de clientes, pools e rotas da internet ficam no iBGP.
  • Uma área só, enlaces ponto a ponto e interfaces passivas por padrão atendem a maioria dos provedores regionais.
  • O BFD nos enlaces derruba a vizinhança em frações de segundo quando a fibra cai.

O papel do OSPF na rede do provedor

O OSPF é um protocolo de roteamento interno que descobre os vizinhos, monta o mapa da rede e calcula o caminho de menor custo até cada roteador. No provedor, ele existe para sustentar o BGP, não para substituí-lo.

O OSPF é muito usado em provedores regionais porque a maioria das equipes aprendeu roteamento com ele e todos os fabricantes o suportam. Ele funciona bem desde que carregue só a infraestrutura.

O erro clássico é colocar no OSPF tudo o que existe: rotas de clientes, blocos de CGNAT e até a tabela do BGP. Num desenho certo, o OSPF carrega só loopbacks e enlaces. Os serviços de BGP e roteamento partem dessa separação.

O que vai no OSPF e o que vai no BGP numa rede de provedor
RotaProtocolo
Loopbacks dos roteadoresOSPF
Enlaces entre roteadoresOSPF
Blocos de clientes e poolsiBGP
Rotas da internetiBGP, ou rota padrão para quem não precisa da tabela

Com essa divisão, uma mudança num cliente não faz nenhum roteador recalcular o mapa da rede. O OSPF só se mexe quando um enlace ou um roteador muda de estado.

Como funciona a configuração de OSPF?

A configuração de OSPF exige três decisões em cada roteador: qual é o router-id, em quais interfaces o protocolo fala e em qual área cada rede entra.

  • Vizinhança: roteadores no mesmo enlace trocam pacotes hello e combinam os parâmetros.
  • Banco de dados: cada roteador anuncia os próprios enlaces, e todos guardam o mesmo mapa.
  • Cálculo: cada um roda o algoritmo de menor caminho e instala as rotas na tabela.

Se os parâmetros não batem entre os vizinhos, a vizinhança não fecha. Por isso padronizar a configuração em todos os roteadores evita a maior parte dos problemas.

Decisões de desenho para um OSPF estável

Para a maioria dos provedores regionais, uma área só é suficiente. Áreas extras trazem complexidade sem ganho enquanto a rede é pequena ou média.

  • Área 0 única: simples de operar e de documentar.
  • Enlaces ponto a ponto: dispensa eleição de roteador designado e converge mais rápido.
  • Interfaces passivas por padrão: o OSPF só fala onde há outro roteador.
  • Loopback /32 como router-id: identificação estável que não muda com a queda de uma porta.
  • BFD nos enlaces: detecta queda em milissegundos em vez de segundos.
  • Autenticação: impede que um equipamento qualquer entre no OSPF.

As interfaces passivas por padrão são a proteção mais simples. Uma porta de cliente com OSPF ativo permite que qualquer roteador mal configurado do outro lado anuncie rotas para dentro da sua rede.

Como ajustar o custo dos enlaces

O custo de cada enlace é a largura de referência dividida pela velocidade da interface. Com o valor padrão de fábrica, enlaces de 1, 10 e 100 gigabits ficam todos com o mesmo custo.

Custo OSPF por velocidade com reference-bandwidth de 100000 Mbps
EnlaceCusto resultante
100G1
10G10
1G100

Com a referência em 100000, o caminho por enlaces de 100 gigabits passa a ser preferido. O valor precisa ser igual em todos os roteadores, ou cada um calcula um mapa diferente.

Configuração de OSPF passo a passo

O exemplo mostra um roteador com loopback e um enlace ponto a ponto, autenticação e BFD. A sintaxe é de Cisco IOS-XE, com uma nota para quem usa RouterOS.

  1. Loopback: crie o Loopback0 com um /32 que vai servir de router-id.
  2. Enlace: configure o /31, o tipo ponto a ponto, a autenticação e o BFD.
  3. Processo: defina router-id, largura de referência e interfaces passivas por padrão.
  4. Exceções: tire do modo passivo só as interfaces que ligam a outro roteador.
  5. Redes: inclua o loopback e o enlace na área 0 e ligue o BFD.
OSPF em sintaxe Cisco IOS-XE
interface Loopback0
 ip address 10.255.0.1 255.255.255.255
!
interface TenGigabitEthernet0/0/0
 ip address 10.0.0.1 255.255.255.254
 ip ospf network point-to-point
 ip ospf authentication message-digest
 ip ospf message-digest-key 1 md5 TROQUE-ESTA-CHAVE
 bfd interval 100 min_rx 100 multiplier 3
!
router ospf 1
 router-id 10.255.0.1
 auto-cost reference-bandwidth 100000
 passive-interface default
 no passive-interface TenGigabitEthernet0/0/0
 network 10.255.0.1 0.0.0.0 area 0
 network 10.0.0.0 0.0.0.1 area 0
 bfd all-interfaces

O reference-bandwidth em 100000 faz o custo diferenciar enlaces de 10 e 100 gigabits. O BFD com intervalo de 100 ms e multiplicador 3 declara o vizinho perdido depois de cerca de 300 ms sem resposta.

No RouterOS 7

A configuração fica em /routing/ospf, com instance, area e interface-template. Os mesmos princípios valem: tipo ponto a ponto, interfaces passivas e autenticação.

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E o IPv6, como fica no OSPF?

O IPv6 usa o OSPFv3, que roda em paralelo ao OSPFv2. O desenho é o mesmo: loopbacks e enlaces, nada de blocos de clientes.

Se a rede vai crescer muito ou se você quer um protocolo só para IPv4 e IPv6, vale comparar com a configuração de IS-IS. Com o OSPF pronto, o próximo passo é a configuração de iBGP.

Quando vale dividir o OSPF em áreas?

Vale dividir quando a rede fica grande a ponto de o cálculo e as mudanças constantes pesarem nos roteadores menores. Num provedor regional típico, esse ponto raramente chega antes de o BGP já estar bem organizado.

Critérios para escolher entre área única e várias áreas
DesenhoFaz sentido quandoCuidado
Área 0 únicaRede pequena ou média, com equipe enxutaEnlaces instáveis afetam o cálculo de todos
Várias áreasMuitos roteadores e regiões com enlaces instáveisToda área precisa encostar na área 0
Troca para IS-ISCrescimento grande e IPv6 em todo lugarExige migração planejada

Antes de criar áreas, confira se o problema não é excesso de rotas. Muitas vezes o OSPF pesado é só um OSPF carregando o que deveria estar no iBGP.

O OSPF no roteador de borda

No roteador de borda, o OSPF só anuncia o loopback e os enlaces internos. Os enlaces com as operadoras também ficam fora, para que o resto da rede não dependa deles.

As sessões com trânsito, caches e o IX.br são assunto do BGP. As rotas aprendidas ali passam pelos filtros de prefixo da borda e seguem para dentro pelo iBGP, nunca pelo OSPF.

Se a borda precisa anunciar uma rota padrão para dentro, faça isso de forma condicional, ligada à presença de rotas externas. Assim, uma borda sem trânsito deixa de atrair o tráfego da rede.

Erros comuns na configuração de OSPF

Quase todo problema de OSPF em provedor cai numa das causas abaixo. A maioria aparece logo depois de uma mudança e some quando a configuração das duas pontas é comparada.

Evite

  • Redistribuir rotas de clientes ou o BGP no OSPF.
  • MTU diferente nas duas pontas, que trava a vizinhança no estado ExStart.
  • Tipo de rede diferente em cada lado do enlace.
  • Reference-bandwidth diferente entre roteadores.
  • OSPF ativo na interface dos clientes, sem modo passivo.

A redistribuição do BGP no OSPF é o erro de maior impacto. Com a tabela completa, ela pode esgotar a memória dos roteadores menores e derrubar o próprio protocolo que sustenta as sessões.

Exemplo: vizinhança presa em ExStart

Depois de trocar um rádio de backhaul, a vizinhança entre dois POPs fica parada em ExStart e não chega a Full. Os hellos passam, mas o banco de dados não é trocado.

  1. Sintoma: os vizinhos se veem, mas a troca do banco de dados nunca termina.
  2. Causa: o rádio novo trabalha com MTU menor que a configurada na interface do roteador.
  3. Correção: a MTU da interface foi igualada ao que o rádio entrega, e a vizinhança fechou.

Quando a vizinhança nem aparece, a causa costuma ser outra, como autenticação ou área diferentes. Compare os parâmetros das duas pontas antes de mexer no equipamento.

Checklist de validação do OSPF

Confira vizinhos e rotas depois de cada mudança, em todos os roteadores envolvidos. Depois, derrube um enlace numa janela combinada e meça quanto tempo o tráfego leva para mudar de caminho.

Confira depois de cada mudança no OSPF

  • Todos os vizinhos esperados estão no estado Full.
  • A tabela de rotas OSPF tem só loopbacks e enlaces.
  • Cada roteador alcança o loopback de todos os outros.
  • Derrubar um enlace leva o tráfego para o caminho reserva em menos de um segundo, com BFD ativo.
  • O reference-bandwidth é igual em todos os roteadores.

Se a tabela tiver rotas de clientes, resolva isso antes de qualquer outro ajuste. O resto da validação só faz sentido com o OSPF carregando o que deve.

  • Vizinhos: o show ip ospf neighbor mostra cada vizinho, o estado e a interface.
  • Rotas: o show ip route ospf deve listar só loopbacks e enlaces internos.
  • BFD: o show bfd neighbors confirma que a detecção rápida está ativa em cada enlace.

A Táquion Tech revisa o roteamento interno, tira do OSPF o que é do BGP e entrega o desenho documentado, com as sessões iBGP apoiadas nos loopbacks.

Perguntas frequentes sobre configuração de OSPF

Uma área OSPF aguenta quantos roteadores?

Não há um número fixo, porque depende da estabilidade dos enlaces e da capacidade dos roteadores. Para a maioria dos provedores regionais, uma área só atende bem [CONFIRMAR limite com o fabricante].

Por que a vizinhança OSPF fica presa em ExStart?

A causa mais comum é MTU diferente nas duas pontas do enlace. Ajuste a MTU igual nos dois lados e a troca do banco de dados volta a acontecer.

Posso colocar os blocos dos clientes no OSPF?

Não é recomendado. Muitas rotas no OSPF deixam a convergência lenta, e os blocos de clientes ficam melhor organizados no iBGP.

É melhor usar OSPF ou IS-IS no provedor?

Os dois funcionam bem. O OSPF é mais conhecido pelas equipes, e o IS-IS escala bem e trata IPv4 e IPv6 no mesmo protocolo.

O BFD é obrigatório no OSPF?

Não é obrigatório, mas sem ele o OSPF depende dos próprios timers para perceber a queda, o que leva segundos. Com BFD, a queda da fibra é detectada em frações de segundo.

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Thiago Manoel

Responsável técnico da Táquion Tech · Registro profissional [PREENCHER]

Mais de 15 anos em operações de rede, com gestão de infraestruturas de TI, administração de data centers e condução de equipes em migrações de TI e telecomunicações, com foco em alta disponibilidade e segurança.

A Táquion Tech é uma empresa de engenharia de redes de Balneário Camboriú (SC) que projeta, opera e dá suporte a redes de provedores de internet e de empresas.

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Fontes

  1. RFC 2328, OSPF Version 2: especificação do OSPF para IPv4.
  2. RFC 5340, OSPF for IPv6: OSPFv3 para IPv6.
  3. RFC 5880, Bidirectional Forwarding Detection: detecção rápida de falha nos enlaces.

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