Guia técnico · Segurança de redes
Implantação de IPFIX: guia prático para provedores
Implantação de IPFIX: é a configuração que faz os roteadores enviarem a um coletor um resumo de cada conversa da rede, com origem, destino, portas e volume. Com isso o provedor vê quem consome o link, detecta ataques e planeja capacidade com dados reais, sem copiar o tráfego inteiro.
Resumo
- O IPFIX é o padrão aberto da IETF que nasceu do NetFlow versão 9 e usa templates com campos escolhidos.
- A implantação tem três partes no roteador, o registro, o exportador e o monitor, e uma fora dele, o coletor.
- A amostragem de 1 em 1.000 reduz a carga em links grandes sem esconder ataques volumétricos.
- A validação compara o volume do coletor com o contador SNMP da interface antes de confiar nos alertas.
O que é IPFIX e como funciona a implantação de IPFIX?
IPFIX é o padrão aberto que nasceu do NetFlow versão 9: o roteador agrupa pacotes em fluxos e exporta registros com os campos escolhidos num modelo, o template. A implantação liga essa exportação nas interfaces certas e aponta para um coletor.
Para o provedor, a diferença prática em relação ao NetFlow antigo é a flexibilidade de campos e o suporte de vários fabricantes. O IPFIX é a base técnica da página de NetFlow e análise de tráfego, que cobre também coletor, painéis e alertas.
| Item | NetFlow v5 | NetFlow v9 | IPFIX |
|---|---|---|---|
| Padrão | Cisco, fixo | Cisco, com templates | IETF, com templates |
| IPv6 | Não | Sim | Sim |
| Campos | Fixos | Flexíveis | Flexíveis e extensíveis |
| Porta UDP comum | 2055 | 2055 ou 9995 | 4739 |
Repare na linha do IPv6: quem ainda exporta em NetFlow v5 não enxerga o tráfego IPv6, que cresce a cada mês nos provedores que já entregam endereço aos assinantes.
Registro, exportador, monitor e coletor
Quatro peças aparecem em qualquer implantação, com nomes que mudam um pouco de fabricante para fabricante. Entender o papel de cada uma evita a maior parte das dúvidas na hora de configurar.
- Registro: define quais campos identificam um fluxo e quais contadores são coletados.
- Exportador: diz para onde os registros vão, por qual porta e em qual protocolo.
- Monitor: junta o registro e o exportador e define o tempo de cache de cada fluxo.
- Coletor: o servidor que recebe, guarda e mostra os fluxos exportados.
IPFIX, NetFlow ou sFlow, qual usar no provedor?
Use IPFIX nos roteadores de borda, onde importa saber cada conversa com origem, destino e portas. Nos switches, onde o equipamento não guarda estado de fluxo, o sFlow costuma ser a opção possível.
- IPFIX: registros de fluxo completos, bons para análise de consumo, detecção de ataque e planejamento.
- NetFlow v9: parecido com o IPFIX, útil quando o equipamento não suporta o padrão aberto.
- NetFlow v5: só faz sentido em equipamento antigo, porque não enxerga IPv6.
- sFlow: amostras de pacotes enviadas em segundos, comuns em switches e alguns roteadores.
Muitos provedores usam os dois: IPFIX na borda e sFlow nos switches de agregação, num coletor que entende ambos. O guia de implantação de sFlow mostra a outra metade dessa combinação.
Quando vale migrar do NetFlow v5 para IPFIX
Vale migrar assim que o provedor começa a entregar IPv6 aos assinantes, porque o v5 deixa esse tráfego invisível. Também vale quando o coletor precisa de campos que o formato fixo não tem.
Na maioria dos roteadores atuais, a troca é feita no exportador, mudando o protocolo de exportação, sem trocar o coletor. Confira antes se o coletor em uso já entende templates IPFIX. [CONFIRMAR suporte no coletor]
Implantação de IPFIX passo a passo
A implantação de IPFIX exige quatro blocos de configuração no roteador e um coletor alcançável pela rede de gerência. O exemplo usa Flexible NetFlow em Cisco IOS-XE, exportando em IPFIX.
- Registro: escolha os campos que identificam o fluxo, como endereços, portas, protocolo e interface de entrada.
- Exportador: aponte para o coletor, use a Loopback como origem e a porta UDP 4739 com protocolo IPFIX.
- Amostragem: defina a taxa conforme a velocidade da interface, para não sobrecarregar o roteador.
- Monitor: junte registro e exportador e ajuste o tempo de cache ativo.
- Interface: aplique o monitor nas interfaces de borda, no sentido de entrada.
O coletor no exemplo usa o endereço de documentação 198.51.100.20. Troque pelo endereço real e confira se a rota de gerência chega até ele a partir da Loopback0.
flow record REG-BORDA
match ipv4 source address
match ipv4 destination address
match transport source-port
match transport destination-port
match ipv4 protocol
match interface input
collect counter bytes long
collect counter packets long
collect timestamp absolute first
collect timestamp absolute last
!
flow exporter EXP-COLETOR
destination 198.51.100.20
source Loopback0
transport udp 4739
export-protocol ipfix
template data timeout 60
!
sampler AMOSTRA-1000
mode random 1 out-of 1000
!
flow monitor MON-BORDA
record REG-BORDA
exporter EXP-COLETOR
cache timeout active 60
!
interface TenGigabitEthernet0/0/0
ip flow monitor MON-BORDA sampler AMOSTRA-1000 inputRepita o registro para IPv6. Em links grandes, a amostragem de 1 em 1.000 reduz a carga sem perder a visão de ataques volumétricos.
Quer enxergar o tráfego da sua rede?
A Táquion Tech configura a exportação nos roteadores, monta o coletor e os alertas de ataque, com IPv4 e IPv6 no mesmo painel.
Como cobrir o tráfego IPv6
O registro do exemplo só casa campos IPv4, então o tráfego IPv6 passa sem ser contado. É preciso um segundo registro com os campos de endereço IPv6 e um segundo monitor aplicado nas mesmas interfaces.
O exportador e o sampler podem ser os mesmos. No coletor, separe os painéis por versão de IP para enxergar o crescimento do IPv6 e os ataques que chegam por ele.
Em quais interfaces ativar
Comece pelas interfaces de trânsito e de ponto de troca, por onde entra o tráfego de fora. Elas mostram ataques e consumo por origem com o menor número de pontos de coleta.
Exportar só a entrada de uma interface mostra metade da conversa. Para ver o tráfego nos dois sentidos, ative a entrada em todas as interfaces de borda, ou entrada e saída onde o roteador suportar sem duplicar fluxos.
Como escolher e dimensionar o coletor
O coletor recebe, guarda e mostra os fluxos, e o tamanho dele depende de quantos fluxos por segundo chegam e por quanto tempo você quer guardar. Ferramentas livres como nfdump e pmacct atendem bem a maioria dos provedores regionais.
- Disco: estime pelo volume de fluxos por segundo e pelo tempo de guarda desejado.
- Retenção: defina quantos dias de fluxo bruto e quantos meses de dados agregados.
- Alertas: limites por destino para detectar ataques em menos de um minuto.
Meça alguns dias de fluxos antes de comprar armazenamento, porque o volume real costuma surpreender para mais ou para menos. A medida certa vem da sua rede, não de uma tabela genérica.
Com um ataque de DDoS detectado, a resposta pode ser a configuração de RTBH. Para proteger o acesso aos roteadores que exportam os fluxos, veja a implantação de TACACS+.
Por quanto tempo guardar os fluxos
Fluxo bruto ocupa muito disco e costuma ser útil por poucos dias, para investigar um ataque ou uma reclamação recente. Dados agregados por hora ou por dia ocupam pouco e servem para planejar capacidade por meses.
Defina as duas retenções antes de comprar disco e revise depois do primeiro mês de uso real. [CONFIRMAR retenção adotada pelo provedor]
O que olhar no coletor no dia a dia
O coletor não serve só para o dia do ataque. Três consultas simples já mudam a forma de planejar a rede.
- Maiores destinos: quais serviços externos consomem mais o link de trânsito no horário de pico.
- Maiores assinantes: quem concentra tráfego fora do padrão, o que pode indicar abuso ou equipamento infectado.
- Origem do tráfego: quanto entra por cada operadora e pelo ponto de troca, para negociar capacidade.
Erros comuns na implantação de IPFIX
A maioria dos coletores vazios ou com números errados vem de poucos pontos de configuração. Quase todos aparecem no primeiro teste, se alguém comparar o coletor com a interface.
Evite
- Coletor que não conhece a taxa de amostragem e mostra volume 1.000 vezes menor.
- Exportar só a entrada de uma interface e achar que viu tudo.
- Firewall bloqueando a porta 4739 entre roteador e coletor.
- Relógios sem NTP, com fluxos fora de ordem.
- Esquecer o IPv6.
O erro do firewall é o mais traiçoeiro, porque o roteador mostra a exportação funcionando e o coletor fica vazio. Confira com uma captura no coletor se os pacotes UDP chegam antes de mexer na configuração do roteador.
Proteja o caminho dos fluxos
Os fluxos mostram quem conversa com quem na sua rede, então o caminho até o coletor faz parte do hardening da gerência. Exponha o coletor só para a rede de gerência e para quem consulta os painéis.
Os registros de fluxo também ajudam a reconstruir um incidente de segurança depois que ele acontece, o que conversa com o registro de incidentes que o R-Ciber cobra dos provedores. [CONFIRMAR na norma]
Tempo de cache e fluxos longos
Com cache ativo de 60 segundos, uma conversa longa, como um download grande, sai em vários registros. Isso é esperado e mantém o coletor atualizado durante o fluxo.
Um cache ativo muito alto atrasa a visão do ataque, porque o registro só sai quando o tempo vence. Para detecção de ataque, prefira valores baixos como o do exemplo.
Como validar a implantação de IPFIX?
Compare o volume do coletor com os contadores da interface e confirme que todos os campos chegam. Só depois disso os alertas merecem confiança.
Checklist de validação do IPFIX
- O volume no coletor bate com o gráfico SNMP da interface.
- Os templates chegam e os fluxos aparecem com todos os campos.
- IPv4 e IPv6 aparecem separados.
- Um teste de tráfego dispara o alerta configurado.
- Todos os roteadores de borda aparecem como exportadores no coletor.
Uma diferença grande entre coletor e interface quase sempre é taxa de amostragem mal informada. Corrija isso antes de investigar qualquer outra causa.
Exemplo: o coletor mostrando um ataque
Um caso típico mostra o valor da implantação feita antes. No horário de pico, o link de trânsito enche e os assinantes reclamam de lentidão.
- Alerta: o coletor dispara o limite por destino para um único IP de assinante.
- Leitura: os fluxos mostram milhares de origens mandando UDP para o mesmo endereço, um padrão de ataque refletido.
- Decisão: o NOC confirma que o IP pode ficar fora e dispara o blackhole na operadora.
- Depois: os fluxos guardados mostram início, pico e fim do ataque para o relatório do incidente.
Sem IPFIX, o mesmo caso começa com o técnico procurando no escuro qual assinante está sendo atacado, enquanto a base inteira fica lenta. O guia de ataque DDoS no provedor mostra a resposta completa.
Perguntas frequentes sobre IPFIX
IPFIX e NetFlow são a mesma coisa?
Quase. O IPFIX é o padrão aberto derivado do NetFlow v9, com campos extensíveis e suporte de vários fabricantes.
A amostragem esconde ataques?
Ataques volumétricos aparecem bem mesmo com amostragem. Fluxos pequenos e raros podem passar despercebidos.
Quanto disco o coletor precisa?
Depende de fluxos por segundo e do tempo de guarda. Meça alguns dias antes de comprar o armazenamento e separe fluxo bruto de dados agregados.
A exportação de fluxos pesa no roteador?
Pesa um pouco, e o peso cresce com o número de fluxos e com a taxa de amostragem. Confira a carga de CPU depois de ativar e ajuste a amostragem se precisar.
Dá para usar IPFIX em roteador MikroTik?
O RouterOS exporta fluxos pelo recurso Traffic Flow, com suporte a IPFIX nas versões mais novas. [CONFIRMAR versão do RouterOS] A lógica de coletor, porta e amostragem é a mesma do exemplo.
Serviços ligados a este guia
- Implantação de análise de fluxos com NetFlow para provedores Segurança e anti-DDoS
- Implantação de cache Meta para provedores BGP e roteamento
Fontes
- RFC 7011, IPFIX Protocol Specification: protocolo IPFIX e porta 4739.
- RFC 7012, Information Model for IPFIX: campos disponíveis nos registros.
- nfdump, documentação do projeto: coletor livre de NetFlow e IPFIX.