O que é scrubbing: a limpeza de tráfego DDoS explicada para provedores
O que é scrubbing: é a limpeza do tráfego de um ataque DDoS feita fora da sua rede, num centro com capacidade bem maior que o seu link. O bloco atacado passa a ser entregue a esse centro, que separa os pacotes do ataque e devolve à sua borda só o tráfego dos clientes, sem desligar o endereço atacado.
Resumo
- O scrubbing desvia o tráfego que chega ao bloco atacado para um centro de limpeza, antes que ele lote o seu link.
- O desvio é feito por BGP, e o tráfego limpo volta à sua borda por túnel ou por circuito dedicado.
- Só a entrada passa pela limpeza; a saída dos seus clientes continua indo direto pelas suas operadoras.
- O scrubbing vira necessidade quando o ataque passa do tamanho do link e o alvo não pode ser desligado por blackhole.
O que é scrubbing e de onde vem o nome
Scrubbing é o processo de esfregar o tráfego para tirar dele o que é ataque, e o nome vem do verbo inglês to scrub. Na prática, é um serviço que recebe os pacotes destinados aos seus IPs, filtra e devolve o que sobrou de legítimo.
O termo apareceu junto com os grandes ataques de negação de serviço, quando ficou claro que nenhum provedor conseguiria absorver sozinho um volume várias vezes maior que o próprio trânsito. A saída foi concentrar a capacidade em poucos lugares, os centros de limpeza, e levar o tráfego até eles só quando necessário.
Um ataque DDoS volumétrico lota o link antes de chegar ao roteador de borda. Por isso, qualquer filtro que você coloque dentro de casa chega tarde: o assinante já sente a perda de pacotes no momento em que o tráfego atravessa o cabo da operadora. O scrubbing resolve isso mudando o lugar onde o filtro age.
A Táquion Tech faz a integração com serviços de scrubbing na borda do provedor: a sessão com o fornecedor, o caminho de retorno, os registros dos blocos e o teste do desvio. O serviço de limpeza é contratado por você, direto com o fornecedor escolhido.
O que é um centro de limpeza de tráfego
É um conjunto de equipamentos de filtragem instalado em pontos de troca e grandes data centers, com conexões de centenas de gigabits ou mais. Os fornecedores mantêm vários centros em países diferentes e somam a capacidade de todos para receber ataques muito grandes.
Para o provedor brasileiro, conta mais a capacidade que fica perto daqui. Se o centro mais próximo está em outro continente, o tráfego dos seus clientes viaja até lá e volta enquanto durar o desvio, e jogos, chamadas de voz e videoconferências sentem o atraso.
O que scrubbing não é
Scrubbing não é firewall, não é antivírus e não impede que o ataque seja lançado. Ele também não serve para o ataque pequeno que a sua própria borda já descarta, porque desviar tráfego por BGP tem custo e leva algum tempo para propagar.
- Não é blackhole: o blackhole descarta todo o tráfego do IP atacado, inclusive o legítimo; a limpeza preserva o legítimo.
- Não é FlowSpec: o FlowSpec aplica uma regra de filtro nos roteadores da operadora; a limpeza leva o tráfego para outro lugar.
- Não é aumento de link: mais banda adia o problema, mas o ataque seguinte pode ser maior que qualquer link que caiba no orçamento.
Como funciona scrubbing DDoS, do desvio à volta do tráfego
O scrubbing funciona em quatro movimentos: alguém percebe o ataque, o fornecedor passa a anunciar o seu bloco, a internet entrega o tráfego ao centro de limpeza e o tráfego limpo volta à sua borda. O diagrama abaixo mostra cada etapa.
1 · Detecção
O ataque aparece nos fluxos
A coleta de fluxos da borda mostra um destino recebendo muito mais que o normal, e o desvio é acionado.
2 · Anúncio
O fornecedor anuncia o seu bloco
O serviço passa a anunciar o /24 atacado por BGP, e as redes da internet preferem esse caminho.
3 · Filtragem
O centro separa o ataque
Os pacotes chegam ao centro de limpeza, que descarta o que tem assinatura de ataque e mantém o resto.
4 · Retorno
O tráfego limpo volta à borda
O que sobrou segue por túnel GRE ou circuito dedicado até o seu roteador, que entrega ao cliente.
A saída do tráfego não muda. As respostas dos seus clientes continuam saindo pelas suas operadoras, e só o sentido de chegada passa pelo centro.
Esse caminho de ida por um lado e volta por outro se chama roteamento assimétrico. É normal no scrubbing, mas exige que nenhum filtro antispoofing ou regra de estado na sua borda descarte as respostas por achar que elas não combinam com a entrada.
Como o desvio por BGP leva o tráfego ao centro
Quando o fornecedor anuncia o seu bloco, as redes da internet passam a ter dois caminhos para ele, e escolhem o do fornecedor por estar mais perto ou por ser mais específico. Em IPv4, o menor bloco aceito pela maioria das redes é o /24, por isso o desvio acontece de /24 em /24.
Para esse anúncio ser aceito, o ROA do bloco no RPKI precisa autorizar o ASN do fornecedor, e o registro de rota precisa existir. O guia sobre validação de origem de rotas mostra por que um anúncio sem autorização é descartado pelas redes que validam.
O que acontece dentro do centro de limpeza?
A filtragem combina várias técnicas em sequência, e cada uma tira uma parte do ataque. O que sobra depois da última etapa é o que volta para você.
- Descarte por assinatura: pacotes UDP vindos das portas usadas em amplificação, como DNS, NTP, SSDP e memcached, são descartados ou limitados.
- Validação de protocolo: conexões TCP que não completam o aperto de mão são barradas antes de chegar ao servidor.
- Limite de taxa: cada origem pode mandar só um volume compatível com o uso normal daquele destino.
- Reputação: endereços já vistos em outros ataques recebem filtro mais duro durante o incidente.
- Perfil aprendido: o centro compara o tráfego atual com o que aquele bloco recebia antes do ataque.
GRE ou circuito dedicado no retorno
O túnel GRE funciona pela própria internet e não exige obra, mas acrescenta cabeçalho a cada pacote. Sem ajuste do tamanho máximo de segmento, sites e VPNs param de abrir durante o desvio.
O circuito dedicado até o fornecedor evita esse ajuste e aguenta mais volume, mas depende de ponto de presença compartilhado e de ativação física. A escolha entre os dois costuma seguir o tamanho do tráfego legítimo que precisa voltar.
Scrubbing, blackhole e FlowSpec diante do mesmo ataque
As três ferramentas param ataques grandes, mas tratam o tráfego legítimo de formas opostas. A tabela mostra o que cada uma faz com o cliente atacado e do que depende.
| Ferramenta | Onde o ataque é parado | O que acontece com o cliente atacado | Do que depende |
|---|---|---|---|
| Blackhole | Na rede da operadora, antes do seu link | Fica sem internet enquanto o descarte durar | Community liberada por cada operadora |
| FlowSpec | Nos roteadores da operadora, por regra de filtro | Continua no ar se o ataque tem padrão claro | Operadora que aceite FlowSpec do cliente |
| Scrubbing | No centro de limpeza, fora da sua rede | Continua no ar, com um pouco mais de latência | Contrato com fornecedor, ROA e caminho de retorno |
O blackhole resolve quase tudo para a base residencial, e o guia sobre o que é blackhole BGP explica o descarte em detalhe. O FlowSpec funciona bem quando todo o ataque vem de uma porta ou protocolo, como mostra a configuração de FlowSpec.
O scrubbing entra onde os outros dois falham: ataque misturado, sem assinatura única, contra um IP que não pode ser desligado. Ele é a camada mais cara do conjunto, e as outras camadas estão no guia sobre o que é anti-DDoS.
Precisa manter um cliente no ar durante ataques maiores que o link?
Na integração com serviços de scrubbing, um Especialista compara fornecedores, configura o desvio na sua borda e mede a volta do tráfego antes do primeiro ataque real.
Em que momento a falta de scrubbing vira problema?
Vira problema no dia em que o ataque passa do tamanho do link e o alvo é alguém que não pode ser desligado. Até lá, o blackhole costuma dar conta, e o provedor nem percebe que falta uma camada.
Muitos provedores só descobrem esse limite no meio de um ataque, quando disparam o blackhole e o telefone do cliente empresarial toca logo em seguida. Os sinais abaixo aparecem antes, para quem olha o histórico.
Marque o que já aconteceu na sua rede
- Um ataque já ocupou todo o link de trânsito, mesmo que por poucos minutos.
- O blackhole tirou do ar um cliente com contrato de disponibilidade.
- O pool público do CGNAT foi atacado e muitos assinantes caíram de uma vez.
- O mesmo bloco foi alvo várias vezes no mesmo semestre.
- Um cliente perguntou por escrito como o provedor protege o serviço dele.
- A operadora de trânsito pediu para você tratar ataques que lotavam o link dela.
Duas marcas ou mais mostram que o descarte já não basta para todos os seus clientes. A partir daí, a limpeza precisa estar pronta antes do próximo ataque, e não contratada no meio dele.
O caso do pool público do CGNAT
Com CGNAT, dezenas de assinantes saem pelo mesmo endereço público. Um blackhole nesse endereço derruba todos eles, e o atacante, que mirava um jogador, acaba tirando do ar uma rua inteira.
Para esse caso, desviar o bloco do pool para limpeza mantém os assinantes conectados. A conta de quando isso compensa está no guia sobre quanto custa scrubbing.
Erros comuns de quem já tem scrubbing
Ter o serviço contratado não é o mesmo que estar protegido. Estas falhas aparecem com frequência no primeiro desvio de verdade.
Evite com o scrubbing
- Nunca acionar fora de um ataque: o primeiro desvio feito em pânico costuma travar em ROA, túnel ou permissão de anúncio.
- Esquecer a assimetria: filtros de estado na borda descartam as respostas e parece que a limpeza derrubou o cliente.
- Deixar o desvio ligado: sem roteiro de retirada, o bloco fica semanas passando pelo centro e a latência vira rotina.
- Ignorar falso positivo: limites muito duros descartam tráfego de jogos e de voz, e o cliente reclama do remédio.
Na prática: um ataque misto contra um cliente empresarial
Um caso típico mostra como o scrubbing se encaixa no restante da defesa. O ataque mistura amplificação e pacotes TCP, e o alvo é um cliente que paga por disponibilidade.
- Detecção: os fluxos da borda mostram um IP de cliente empresarial recebendo várias vezes o tamanho do link, com UDP de várias portas e SYN em excesso.
- Primeira reação: o NOC descarta por FlowSpec o UDP de amplificação, mas o SYN continua e o link segue cheio.
- Desvio: o /24 do cliente é anunciado pelo fornecedor de limpeza, e em poucos minutos o tráfego de entrada passa a chegar pelo túnel.
- Conferência: o cliente segue navegando, o link de trânsito esvazia e o NOC confere se sites com pacotes grandes continuam abrindo.
- Retirada: quando o ataque para, o anúncio é retirado pelo roteiro e o tráfego volta ao caminho normal sem oscilação de rotas.
Sem a limpeza, a única saída seria o blackhole do IP do cliente, que cumpriria o objetivo do atacante. Para a detecção da primeira etapa, o guia sobre como identificar DDoS mostra o que os fluxos revelam.
Quando vale ter scrubbing e quando o blackhole basta?
Vale ter scrubbing quando existe pelo menos um bloco com clientes que não podem ser desligados e ataques maiores que o link. Para base só residencial, sem cliente com contrato, o blackhole bem configurado costuma bastar.
- Só residencial: blackhole por operadora, filtros na borda e detecção pelos fluxos resolvem a grande maioria dos casos.
- Residencial com poucos clientes empresariais: concentre esses clientes num mesmo /24 e proteja só esse bloco com limpeza sob demanda.
- Muitos clientes com contrato: a limpeza deixa de ser exceção, e o acionamento automático passa a valer a conta.
- Alvo frequente, como hospedagem ou servidor de jogo: o modo sempre ligado evita o tempo de ativação a cada ataque.
O scrubbing exige um bloco /24 inteiro para desviar, registros em dia e um caminho de retorno testado. Por isso a decisão vem antes do contrato: primeiro se escolhe quais blocos precisam de limpeza, depois o fornecedor.
Perguntas frequentes
Scrubbing funciona para ataque contra um único IP?
Funciona, mas o desvio é feito pelo bloco inteiro, porque em IPv4 a internet não aceita anúncios menores que /24. Todos os IPs daquele bloco passam pela limpeza enquanto o desvio durar.
O tráfego de saída também passa pelo centro de limpeza?
Não. Só o tráfego que chega ao bloco desviado vai para o centro; as respostas dos clientes saem direto pelas suas operadoras. Por isso a borda precisa aceitar o caminho assimétrico sem descartar pacotes.
Quanto tempo o scrubbing leva para começar a limpar?
No modo sempre ligado, a limpeza já está ativa quando o ataque começa. No sob demanda, soma o tempo de detecção e o de propagação do anúncio BGP, que precisa ser medido em teste [CONFIRMAR com o fornecedor].
Como funciona scrubbing DDoS com IPv6?
O princípio é o mesmo: o fornecedor anuncia o bloco IPv6 e devolve o tráfego limpo. Confirme se o serviço limpa IPv6 e se os blocos /48 têm ROA autorizando o fornecedor, porque nem todo contrato cobre os dois protocolos.
A operadora de trânsito pode fazer a limpeza?
Algumas operadoras oferecem limpeza junto com o link. Nesse caso, a proteção cobre só o tráfego que entra por aquela operadora, e quem tem mais de um trânsito precisa conferir o que acontece com os outros caminhos.
Fontes
- DDoS mitigation (Wikipédia em inglês): explica os centros de limpeza e o redirecionamento do tráfego atacado para filtragem fora da rede de destino
- RFC 2784: Generic Routing Encapsulation (GRE): define o túnel GRE usado para devolver o tráfego limpo à borda do provedor
- RFC 4459: MTU and Fragmentation Issues with In-the-Network Tunneling: trata da perda de tamanho útil de pacote dentro de túneis, motivo do ajuste no caminho de retorno